quarta-feira, 20 de novembro de 2013

AMOR PLENO


Neil (Bem Affleck) e Marina (Olga Kurylenko) em "Amor Pleno".

O diretor Terrence Malick é um raro exemplo de autor de cinema dentro do esquema industrial de Hollywood. Em 45 anos realizou apenas 10 filmes (3 ainda em fase de edição). Arredio às homenagens que vem recebendo desde seu primeiro longa-metragem, ”Terra de Ninguém”(Badlands, 1973), ultimamente enveredou por uma linha de introspecção, procurando seguir o dificil caminho de traduzir em imagens os seus (ou de seus personagens) sentimentos. Assim criou, há dois anos, o excelente “A Árvore da Vida”(The Tree of Life, 2011) onde procurou dimensionar a vivência de suas personagens a partir da criação do universo. Agora, em “Amor Pleno”(To The Wonder, 2012), segue adiante e procura realizar um filme sobre o amor. Não um romance ou um enfoque científico sobre o relacionamento de duas pessoas. O que interessava era traduzir “amor” em imagens.
O argumento trata de Neil (Bem Affleck) e Marina (Olga Kurylenko), um casal que se apaixonou na França e se mudou para uma pequena cidade de Oklahoma (EUA), levando a filha dela. A paixão acaba se restringindo com o tempo e quando Marina é obrigada a retornar para a Europa depois de se extingir o visto de permanência na America, ele encontra uma antiga namorada com quem inicia um novo contato. Paralelo aos conflitos do casal, um padre passa por uma crise de fé, a filha de Marina repele o possível padrasto e prefere se mudar para a casa do pai biológico de quem a mãe estava separada há muitos anos. Observam-se, então, dois blocos expressivos sobre esse argumento. No primeiro, as sequencias do envolvimento emocional que leva às declarações de amor, pelo par, são marcadas por imagens da água corrente em todas as dimensões que esta possa ser mostrada brotando na natureza. No segundo, a decadência da relação de amor influenciada pelas mudanças do próprio ambiente com vistas ao recomeço a partir dessas mudanças, explora imagens percorrem terrenos áridos, matas, “em terra”. No ambiente da igreja vê-se um padre questionando a fé que está perdendo. Ou seja, esse subplano será tratado nesse segundo bloco.
Se a linguagem fosse linear, ou seja, se o relacionamento dos personagens fosse narrado de forma explicita, apresentando um começo, meio e fim, o filme seria mais um programa comercial na linha do melodrama que de alguma forma fez escola na indústria cinematográfica. Mas o que Malick pretendeu foi mostrar através da brilhante fotografia de Emanuel Lubeski (e da música incidental de Hanan Townshend) a imagem do amor. Seria, por exemplo, o enfoque da paisagem em meio ao envolvimento do casal em gestual de abraços ou correndo por um campo ou uma praia. Malick deve ter pensado que o que amantes guardam de seus melhores momentos de união passa pela comunhão com a natureza. Não à toa que os poetas buscam na paisagem os seus versos mais comunicativos.
Mostrar o “amor pleno” e daí partir para o esvaziamento desse amor é a tarefa básica do trabalho. Não satisfeito, o cineasta volta a um tema sempre presente em sua obra: a questão da fé. O padre católico Quintana (Javier Bardem) claudica em sua missão religiosa. Não consegue ver Deus na velha igreja onde trabalha. E ao acompanhar o que se passa com seus fiéis, no caso Neil e Marina, ele questiona mais alto o seu credo.
Evidentemente o filme mergulha numa dimensão desafiadora. Basta lembrar os títulos introspectivos de Antonioni ou Bergman. Mas estes autores não tentam “cinematizar” um sentimento, ou seja, mostrar o amor em imagens diretas, como Malick representa o ato de sentir. Um close de Liv Ullman ou um andar de Monica Vitti diz o que se passa com um amante. Mas o que é que elas sentiram? É como se você tentasse, a lembrar de uma comédia que asssisti há muitos anos, capturar o assovio (não o termo, mas o ato).

“Amor Pleno” é um raro exemplo de cinema criativo no ato de capturar novas representações. Vê-lo com paciência é engrandecer o espírito. Mas é preciso isso mesmo: paciência e o reconhecimento desse plano de profunda exposição da pulsão humana. Não é cinema digestivo. É uma peça de reflexão e arte.

Um comentário:

  1. Alex Barata da Silva22 de novembro de 2013 04:21

    Ola cara Luzia, saudades de comentar aqui9 no seu blog, aprendi a goista do Terrence Malick ao ver terra de ningeum onde ele maborda a questão da espetacularização de crimes e a ofatoi de se torna bandidos em idolos, em Arvore da Vida outro filme excelente dele ele aborada o sentido da vida em todos os seus aspectos, ainda não vi amor Pleno, mas queto muito ver.

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