sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

UM DRAMA DE AMOR


Jean Louis Trintignant e Emanuelle Riva em "Amor".

Michael Haneke, diretor alemão de 70 anos, reuniu dois atores octogenários, Jean Louis Trintignant (82) e Emanuelle Riva (87) em “Amor” (França/Alemanha/Austria, 2012) para protagonizarem um casal de idosos cujas alegrias compartilhadas construiram um cotidiano digno entre a profissão pública e o ambiente privado familiar. Anne e George dão aulas de música e se defrontam com a adversidade quando ela sofre uma isquemia, sem êxito cirúrgico e de evolução progressiva, e ele é quem vai acompanhá-la no tempo que lhe resta, nos estertores da dimensão cotidiana que favoreceu os dias vividos, criando hábitos salutares, na composição de uma relação ambiente amigável e plena de ganhos pessoais e profissionais.
Revi o filme num cinema comercial. A sala esteve quase lotada por quem assistiu em silêncio o drama que jamais se arrisca às facilidades das obras sentimentais e exibe uma narrativa primorosa no acompanhamento das personagens que, em tese, fazem o filme funcionar.
Haneke não discute a perenidade do amor. Exibe a dor sentida pelos amantes idosos, usando diálogos bem colocados e de expressões que transmitem os sofrimentos de mulher e marido a ponto de o espectador sentir como se fossem velhos conhecidos ou mesmo parentes próximos.
Há um dialogo de George (Trintignant) com a filha (Isabelle Hupert) muito ilustrativo do que ele está sentido. Ao ver o estado da mãe, a filha pede que o pai tome providencias, que leve a mulher de volta ao hospital, pois “hoje a ciência tem mais recursos para a cura”. Ele responde: “-Você está livre para pesquisar”.
Também há outro momento-síntese: um pombo invade o apartamento de George e Anna e ele tenta segurar a ave. É uma segunda vez (visto que a primeira visita da ave recebeu dele uma recusa e a entrega para a liberdade, pela janela) e desta, com as portas e janelas hermeticamente fechadas, George consegue jogar seu casaco sobre o pombo. Segura-o contra o peito e fica, trôpego, em uma cadeira. Dessa sequência, outra se segue, mas a ave não é mais vista. A busca, nesse caso, não está no plano físico, se o espectador avaliar essas duas sequências e reconhecer a representação desses momentos. O emblema proposto é a prisão do casal em uma condição de irreversibilidade diante da doença, e a impotência de um retorno aos velhos hábitos.
“Amor” é um sentimento que se arrisca a filmar. O que se vê são pessoas que tentam dar substância ao poder de uma união que passa longe do meio século. E os tipos são músicos. A musica só é lembrada na construção narrativa quando executada por alguém (pianistas quase sempre). O mais é silencio. A distância que se faz da música erudita que seria não apenas o objeto profissional dos tipos focalizados, mas a constatação de um comportamento adquirido em uma proposição cultural de alto nível.
Não se pode dizer que o filme é só diálogo, embora seja de uma grande riqueza nesse quadro. Em mais de um momento a câmera desloca-se pelo ambiente onde vivem George e Anne. As estantes cheias de livros, os aparelhos de som, o piano, o bule e as xícaras de chá, a arrumação detalhada, tudo serve para indicar como vivem os moradores e, em contrapartida, como se sentirão quando passam a enfrentar uma situação de dor.
Emanuelle Riva exibe a máscara da enferma em agonia. Poucas vezes vi no cinema expressões tão pungentes. Mas não se deixa por menos o que faz Jean Louis Trintignant. O ator que aplaudimos em obras como “O Conformista” (1970) consegue incorporar as idiossincrasias geracionais, do andar ao falar, e como se esses fatores fossem caros à sua própria idade, sabe demonstrar o quanto lhe pesa, gradativamente, ver sua companheira definhando e ele sem poder interromper este processo. A raiva que sente pela impotência se expressa na bofetada que dá no rosto da esposa inerte que lhe cospe e vomita. Isto reflete o sintoma da condição humana. Não somos infalíveis nem santos, mesmo diante de quem amamos até a morte.
“Amor”é o superlativo dramático que o cinema pode conseguir. Uma obra-prima que será lembrada com certeza daqui a mais anos. 

2 comentários:

  1. Alex Barata da Silva8 de fevereiro de 2013 05:15

    : Fazia tempo que não saía de uma sessão de cinema tão pertubardo . Já na primeira cena quando a Anne(Emanuele Riva), aparece morta deitada na cama, já me incomodou , o que se segue foi uma sensação de angustia ao ver uma senhora que até então era boa de saúde definhar e detalhe percebendo que sua doença e irreversivel se recusa a um tratamento que pouco surtir efeito e prefere ser tratada em casa, aqui se começar um outro drama o marido Georges(Jean-Louis Trintignant) demonstra uma certa crueldade não tendo paciencia para enfrenta a situação da esposa a cena do tapa na cara de Anne dada por Goerges, quando ela já não aguentando todo o sofrimento se recusa a beber água é impactante, quando se pensa que as surpresas já acabaram , Georges toma uma atitude extrema mataa esposa sufocando-a com o travesseiro.Toda essas questões me fizeram refletir até que ponto vale a pena prolongar o sofrimento de alguem que viveu intensamente a vida e chega sua velhice vitima de uma doença incuravel e irreversivel e me lembrou um fato bem recente ainda vivo em nossa memória o suícidio do ator Wamor Chagas que tomado por uma serie de doenças, resolveu ele mesmo da fim a sua vida a ficar dando trabalho para outros.

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  2. Fiquei comovida e encantada.Demonstra o respeito ao que o outro quer.Parceria é isso!a simbologia da água nas torneiras, no banho da chuva me intrigou...serve para reflexão!

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