terça-feira, 15 de janeiro de 2013

REVER FELLINI


Federico Fellini e os atores Alberto Sordi, Franco Interlenghi, Leopoldo Trieste, Franco Fabrizi, Eleonora Russo de "Os Boas-Vidas"(1953)

Federico Fellini (1920-1993) um dos mais inventivos cineastas do século passado (e um dos meus preferidos) ganha um programa esta semana no Cine Olympia centrado em seus melhores filmes (no olhar de quem fez a seleção). Aliás, do grupo escolhido acho que só faltam: “A Doce Vida” (1960) e “E La Nave Va”(1983). Os demais são, também, obras-primas à disposição dos cinéfilos a partir de hoje: “Os Boas Vidas”(I Vitelloni, 1953), “Oito e Meio”(Otto i Mezzo, 1963), “Roma de Fellini ”(1972), “A Estrada da Vida”(La Strada, 1954), “Noites de Cabiria”(Notti di Cabiria, 1957) e “Amarcord”(1973). As exibições iniciam hoje, terça, e seguem até domingo nessa ordem de exposição.
“Os Boas Vidas” explora os emblemas de “Amarcord”, haja vista que ambos tratam de situações viividas na juventude e mocidade do diretor. O contexto é a cidade de Rimini, ao sul da Itália, nos anos da 2ª Guerra Mundial. No primeiro filme não há um enfoque político evidente. O que se vê é a rotina de rapazes que o autor chamou de “vitelloni” e que realmente quer dizer “desocupados”. Fellini estaria representado pelo personagem Moraldo, interpretado pelo ator Franco Interlenghi (que ainda está no cinema e em 2010 participou do filme “La Bella Societá”, um drama de Gian Paolo Cugno). Em sua figura, Fellini centra algumas indagações das mudanças internas que está vivendo e, no final do filme, é quem parte para Roma. “Amarcord” pode ser Moraldo em Roma, mas como não foi a concretização do projeto chamado “Moraldo in Cittá” ficou uma crônica independente onde tipos pitorescos contam a história da Itália no período. A trilha sonora e canções de Nino Rota dão ênfase a esses tipos e ao quadro histórico brilhantemente reconstituído. É um tempo em que as descobertas adolescentes dos protagonistas se mesclam ao autoritarismo familiar e às idéias em escalada do fascismo.
“8 e Meio” é a síntese da obra felliniana. Acompanha um diretor de cinema que intenta fazer um filme de ficção-cientifica depois de trabalhar ideias que se esgotam. O intelectual em crise passa em revista a sua vida. Fellini pensou: assim como os compositores numeram suas obras ele, em cinema, numeraria a sua. É a sua sinfonia, o oitavo longa-meragem somado a um curta que realizou para compor uma coletânea.
“Roma de Fellini” traduz a versão sobre essa capital que o jovem de Rimini vê quando chega do interior para trabalhar como jornalista. Tipos e fatos em tempos díspares surgem em tom pitoresco, tentando não só um painel histórico, mas captar a alma do povo. Um depoimento sincero que o próprio Fellini mostra atuando.
E chega o meu segundo filme predileto: “La Strada”. Impossivel esquecer Gelsomina (GiuliettaMasina), esposa de Fellini, como a mocinha interiorana que é levada da família pelo saltimbanco Zampanô (Anthony Quinn, excelente) depois que a irmã dela , ajudante desse personagem, havia falecido. A ingenuidade de Gelsomina e a brutalidade de Zampanô entram em choque quando surge na vida deles “Il Matto”, um equilibrista que também se exibe nas ruas. Esse tipo é interpretado por outro grande ator: Richard Basehart(1914-1984). Há uma sequencia que me parece marcante: vendo Gelsomina triste, O Louco (Il Matto) diz à ela que tudo no mundo tem razão de ser que até uma pequena pedra se não existisse poderia gerar uma catástrofe. É uma forma de dar valor à pobre garota que sofre nas mãos de seu patrão, amante e tudo o mais. E Giulietta volta a um tipo semelhante, três anos depois, no também excelente “Noite de Cabiria”. Neste filme ela protagoniza uma prostituta ingênua que se ilude com as promessas de um pretenso namorado. A desilusão final onde a tristeza se dissemina no espírito da jovem é diluída quando um grupo de garotos passa por ela cantando. E ela sai atrás deles. A vida sempre continua.
E assim era Federico Fellini e seu cinema. Saído do movimento neorrealista, onde atuou em roteiros e chegou a estrear na direção ao lado de um dos nomes desse movimento, Alberto Lattuada, em “Mulheres e Luzes” (Lucci Del Varietá, 1950), o “vitelloni” de Rimini esmerou-se na criação de um cinema próprio, a mescla de cruel realidade e sentimentos que relevam os maiores problemas. Sua alma de interiorano de uma cidade italiana marcou o grande mote para uma obra imortal. 

A personagem Saraghina em "Amarcord" (1973). 

3 comentários:

  1. Alex Barata da Silva15 de janeiro de 2013 07:50

    ver Fellini sempre é bom, uma aula de cinema

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É isso, Alex, é um dos meus melhores diretores. Tenho paixão por ele. Aliás, é bom dizer: as listas dos leitores sairá na segunda feira. na Minha coluna e aqui também. Abçs.

      Excluir
  2. Ontem vi Estrada da Vida, excelente filme

    ResponderExcluir