quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

ALMODÓVAR E AS COBAIAS



Ao cinéfilo que reconhece em Pedro Almodóvar um resistente às tramas convencionais alio minha cumplicidade nessa idéia, reconhecendo que é nessa linha que a meu ver se inscreve o chamado cinema de autor. Porque o uso criativo das imagens renova-se a cada argumento proposto e executado. Sua inciação no cinema vem da realização de curtas metragens, bitola ao qual se dedicou de 1972 a 1978 tornando-se um dos incentivadores da contracultura e a partir daí crescendo o conhecimento mundial sobre sua obra, tornando-se representante do movimento cultural pop espanhol “La Movida”. Seu primeiro filme realizado em 16 mm foi“Pepi, Luci, Bom e outras Garotas” (1980) sendo lançado ao público em 35mm. Com seu irmão Augusto criou sua própria empresa de produção, El Deseo, S/A, até hoje responsável pelas suas realizações.

Ao avaliar os temas e o formato de argumentações para o cinema, a partir de sua obra, evidenciam-se tipos peculiares. Chamo atenção dos filmes considerados mais bem cotados no circuito de crítica como: “Fale com Ela”(2002); “Tudo Sobre Minha Mãe” (1999); “Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos” (1988); “Carne Trêmula”(1997); “Volver”(2006); “A Lei do Desejo” (1986); “Má Educação”(2004); “De Salto Alto” (1991) “A Flor do Meu Segredo” (1995). A cada nova produção, os impactos para a crítica e o público em geral chegam a ser polêmicos, algumas delas sendo vistas como um soco no estômago de quem as assiste.

Seus principais temas estão assegurados sobre as relações sociais de gênero com ênfase na figura feminina, na transsexualidade, no poder. Nos reflexos de sua discussão sobre o modo dessas relações sociais se evidenciarem como relações de poder deve-se considerar que esse tem sido motivador de suas criações, como “Tudo sobre Minha Mãe”, uma obra que aponta o sentido da maternidade e da paternidade sem a vulgaridade em mostrar a constituição de uma familia tradicional, mas o processo identitário transformado desse grupo social. Na morte do filho e na busca do pai travesti e no sequenciamento desses relacionamentos supostamente obscuros entre as demais personagens, são esclarecidas as convivências naturais aparentemente incomuns, mas em clima de intensa poesia visual, mostrando a sensibilidade pela diversidade despojada do preconceito, sentimento que poderia enfraquecer a idéia da arte sensível que o diretor elabora na sua visão de mundo.

Em “A Pele que Habito” (2011), dividido em dois atos e mais um terceiro que agora percebi com mais detalhes, Almodovar não está querendo reverter em suspense o que vai desenvolver visto que esta ação poderá levar o público a se distanciar do que ele pretende firmar na temática. Verifique-se o primeiro ato, a partir da apresentação do cirurgião plástico, Robert Ledgard (Antonio Banderas) na expectativa perfeccionista de suas ações cirúrgicas sendo mostradas através do detalhamento de planos diversos sem explicitar muito sobre o que pretende. Explora sequências de enclausuramento de uma jovem, Vera (Elena Anaya),e das atitudes desta a partir de uma imensa tela supervisionada por uma mulher mais velha, Marilia (Marisa Paredes), cuja função objetiva a apoiar Robert que só depois se sabe ser seu filho. O cotidiano dessas suas personagens apresenta ambientes separados com formas especiais de contato entre as duas principais figuras, presas em mundos diferentes. A liberdade de Vera é obstruída embora seu gestual coreográfico supõe-na aceitar aquele limite. Pergunta-se então: é aceitação ou artificio enganoso o que a faz conviver com o médico nesse primeiro momento? O que representa a condição de experimento onde recortes de pele humana são preparados para plasmar-se em seu corpo? Torná-la presa e castrada de levar uma vida de jovem no seu gênero induzirá à sua aceitação dessa condição?

A compreensão desse primeiro ato será resolvida no segundo ato, com a referência “seis anos antes”, num longo flash back redutor das incompreensões do primeiro, tendendo ser explicativo. Nesse caso, o espectador se apossa dos motivos da ação do médico, quando a capacidade de transformação da anatomia humana se revela a castração de um gênero sexuado por outro, com os acintes de um sentimento de vingança, observados os condicionamentos anteriores – negação da criatura pelo criador, domínio das ações e tentativa de estimular o sentimento de afeto que a nova criatura demonstra por ele.

Então o terceiro e curto ato, “Volta ao presente”, possibilita uma nova versão à história de Vera, na imersão de sua dimensão psicológica de “ser transformado” às expectativas de seus artificios como a “nova criatura”. Momento de superação do constitutivo do modelo arquitetado para a redescoberta do próprio ser. Na pele habita aquele que é.

Um comentário:

  1. Alex Barata da Silva10 de janeiro de 2012 07:13

    Há muito tempo não via um filme de suspense tão envolvente, que nos surpreende com sua história Pedro Almodovar conseguiu realizar um excelente filme de suspense.

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