terça-feira, 1 de abril de 2014

O DIA QUE DUROU 21 ANOS



O presidente João Goulart em um de seus pronunciamentos

Muito oportuno o titulo do documentário de Camilo Tavares sobre o golpe militar de 1964 e que hoje será exibido no cinema Olympia como parte da programação: “1964: Lembrar Para Não Esquecer”.
O filme repassa a gênese do golpe (crise provocada pela renúncia do presidente Jânio Quadros em 1961) e focaliza primordialmente o papel dos EUA em todo o processo. Centra, principalmente, na ação do embaixador norte-americano na época, Lincoln Gordon, passando pelas inúmeras manifestações do então presidente John Kennedy sobre a situação do Brasil e transferindo-se para o sucessor dele, Lyndon Johnson após o assassinato do primeiro. Prossegue até 1969, com o sequestro do embaixador Charles Burke Elbrick, por grupos armados, que pediam a sua troca pela libertação de 15 presos políticos (entre os quais estava o jornalista Flávio Tavares, pai do cineasta), banidos para a cidade do México. É nessa cidade que em 1971 nasce o cineasta cuja primeira idéia do filme seria abordar a vida do pai.
Imagens mostram navios dos EUA nas proximidades de águas brasileiras prontos para entrar em ação se os militares do país não depusessem Goulart. Havia até mesmo um porta-aviões esperando ordens para sobrevoar pontos estratégicos.
A CIA e a casa Branca teriam tido um papel de destaque na estrutura golpista, com o Pentagono preocupado com a transformação do Brasil numa “nova Cuba”.
A operação chamada “Brother Sam” é esmiuçada com documentos e entrevistas com pesquisadores brasileiros e norte-americanos, num prodigioso levantamento de dados, com as gravações sonoras liberadas em 1969 pela  Biblioteca Presidencial Lyndon Baines Johnson, audios que foram difundidos em 2004 pela organização governamental “The National Security Arquive”. Há ainda materiais encontrados em outras bibliotecas onde a memória de John Kennedy (1961-1963) e de Lyndon Johnson (1963-1969) são preservadas, além de imagens de emissoras de tevê dos EUA.
As intervenções dos presidentes norte-americanos ao processo se fazem atreladas às suas vozes nas assertivas com Lincoln Gordon e outros brasileiros que estiveram no conluio militar.
A costura do material que o cineasta encontrou ganha um ritmo de filme dinâmico e o espectador comum, mesmo o que abomina o genero “documentário” fica empolgado com o que vê. Devido a opção por ferramentas de ficção usando o audio e as imagens dos presidentes norte-americanos ao lado de figuras da política brasileira, material manipulado digitalmente conforme estivessem negociando a intervenção e o golpe no Brasil, alguns críticos viram nisso certo desconforto quando, ao meu ver, se torna uma maneira de ostentar as conversasões permeadas de informes dos inúmeros “espias” daquele país que chegavam com a função de repassar informações. Se o olhar de Kennedy se desloca para uma outra sequencia em que Jango está em visita e cumprimentando o presidente chinês ou russo, trata-se de uma maneira objetiva de mostrar que essas imagens reais causam desconforto aos grandes parceiros do golpe. E isso é conseguido com a comprovação dos documentos em fac-simile que são expostos no filme. Também a presença dos historiadores norte-americanos narrando os fatos em processo vem comprovar que essa versão do golpe era do pleno conhecimento da “inteligentzia” daquele país. Os jornalistas e pesquisadores brasileiros – Marcos Sá Corrêa e Carlos Fico, este professor da UFRJ – não somente dão suas lembranças pessoais, mas confirmam as situações políticas que ocorreram nesses anos de prisões clandestinas, tortura, morte e desaparecimento de cidadãos e cidadãs que se mostravam contrárias às arbitrareidades.
A narrativa estanca no governo Medici. O fim do período citado não se esmiúça. Mas o eixo final é justamente o sequestro e a exposição dos 15 presos políticos que foram trocados pelo embaixador Elbrick e banidos para o México. O documentário “Jango” de Silvio Tendler (já exibido aqui) diz mais desse governo. Entretanto, ninguém antes tinha detalhado a participação norte-americana na invasão de nossa vida publica. Nesse ponto, o filme de Tavares chega a ser enfático e penetrante.

O programa que está no Cine Olympia vai seguir até domingo, dia 6, com filmes e depoimentos de pessoas que viveram a época. Um momento histórico para um episódio triste da vida do país. Mas que mostra a sua cara a medida que essas verdades se tornam públicas. 

quinta-feira, 27 de março de 2014

“O ESTRANHO EM MIM” & OUTROS VIDEOS

Susane Wolff em "O Estranho em Mim": depressão pós-parto.

O cinema tem exposto varios casos clínicos com sucesso até mesmo entre médicos (no caso, os maiores críticos desse gênero). Circulando em DVD, sem passar pelos nossos cinemas (o que não é de espantar) “O Estranho em Mim” (Das Fremde in Mir, Alemanha, 2008) terceiro filme de longa metragem dirigido por Emily Atef (com roteiro dela e de Esther Bersnstorff) vencedor de 7 prêmios internacionais, inclusive em S.Paulo. Pelas minhas anotações de pesquisa (com consultoria dos médicos da familia, diga-se) trata-se de um caso do que se chama DPP (Depressão Pós-Parto). A primeira metade da narrativa acompanha Rebecca (Susanne Wolff), no processo gravidico de espera da chegada de seu primeiro filho. Até aí tudo normal com a expectativa aliando futuros mãe e pai numa alegria conjugada. Mas ao nascer a criança, Rebecca começa a sentir uma espécie de repulsão. Seu leite é insuficiente, o menino chora muito, e ela, sozinha em casa, vai definindo uma ojeriza por aquele ser sobre o qual não experimenta nenhum sentimento, salvo uma espécie de angústia pelos gritinhos de fome que ele emite.
O enredo ganha uma sequencia que ilustra bem o que a DPP pode originar na vida de um casal: já sentindo que a esposa (depois de ter tido crises de fuga, de suicidio e etc), está melhorando psicologicamente, o marido deixa-a com a criança. Ao retornar para casa não encontra nem mãe nem filho. Os dois tinha ido passear naturalmente. Contudo, o temor na expectativa de que ela teria praticado alguma coisa de ruim ao bebê faz com que o esposo chegue a chamar a policia. A atitude dela com o bebê no colo é de alegria, conta o que fez, mas é recebida com furiosa repreensão. Mesmo porque há um episódio anterior, quando a doença começa a se manifestar, que ela abandona o filho no carrinho, em plena rua, e sai de ônibus sem saber para onde. Quando percebe o que fez, volta correndo. Já está uma multidão em volta do menino e logo chegam policiais. Em outro momento tem ânsia de afogá-lo na banheira.
A depressão pós-parto é evidenciada até mesmo no seu processo evolutivo. Há cura, e o filme mostra o tratamento, mas a confiança em quem já manifestou sintomas custa a se fazer sentir.
Uma narrativa exemplar e um desempenho excelente de Susane Wolff. Um filme imperdível. Enquanto este exemplar mostra o processo de adoecimento de uma mãe e as atitudes que podem atingir o filho e sua autoconfiança, há um vídeo sobre o aborto, produzido por uma facção religiosa, que se limitar a condenar o processo sem análise que se ocupe da mãe. Esta “coisa” está sendo programada para o cine Olympia. Deve ser evitada como todo filme sectário.
Não havia assistido no cinema ao filme “Tabu” (Portugal, 2011) de Miguel Gomes. Vi agora em DVD. Focaliza Aurora, uma mulher que vive em um prédio, em Lisboa, tendo como companhia uma africana de meia idade. Quando ela morre descobre-se o seu passado na Africa onde se encontram raízes do império português.
O filme começa com uma sequencia na selva onde um branco caçador se entrega a um crocodilo como prova de sua desilusão de valores reais. Daí desloca-se para a capital de Portugal avançando no tempo. Uma narrativa lenta, quase contemplativa, vai estudando personagens como Pilar (Teresa Madruga), Santa (Isabel Cardoso) e a citada Aurora (Laura Soveral).
O filme, em preto e branco, ganhou 6 premios inclusive o de melhor diretor em Berlim. Entre nós foi mencionado entre os melhores do ano por colegas da ACCPA. Vale a pena conhecer.
Lucia Murat continua na temática que é o golpe de 1964. Em “A Memória que me Contam”(Brasil, 2012) ela elabora um autoretrato onde focaliza um grupo que resistiu aos militares do período e que hoje reflete sobre esse tempo.O filme é detalhista e pouco inventivo, utilizando a oralidade como processo de exposição e escuta das memórias desse tempo, mas a sinceridade de propósito poreja em cada sequencia. Foi premiado no Festival de Moscou.


SEM ESCALAS



Liam Neeson é o agente federal aéreo

A história do cinema registra muitos filmes sobre suspenses aéreos. Há dois anos surgiu “Vôo” (Flight) de Robert Zemeckis onde Denzel Washington saindo de uma ressaca  com drogas e bebidas pilota um avião cheio de passageiros. Nas acrobacias para conseguir alcançar um aeroporto, chega até a voar de ponta cabeça, mesmo assim causando algumas vitimas fatais. Agora é a vez de Liam Neeson protagonizando um agente federal aéreo que se acha num avião num percurso de Nova York a Londres e recebe, no seu celular, uma mensagem de alguém que planeja matar um passageiro a cada vinte minutos se não for transferido para uma conta bancária o deposito no valor de US$180 milhões. Não se sabe como vão acontecer essas mortes e muito menos quem está ameaçando. O primeiro caso fatal surge numa briga do próprio Neeson com um colega, numa dependência do aparelho. Mas há casos inexplicáveis e começam a brotar as suspeitas. É justamente a descoberta do criminoso que seduz a plateia e a trama se torna ainda mais sinistra quando é descoberto que a conta bancária que deve receber o dinheiro está registrada no nome do próprio agente (Nesson).
Misturando fórmulas que vão de histórias de Agatha Christie, Ellery Queen e dos “disasters movies”, o roteiro de John W. Richardson, Christopher Roach e Ryan Engle, dirigido pelo espanhol Jaume Collet-Serra, mantém a atenção dos espectadores mesmo não se furtando de estereótipos diversos (alguns para despistar os detetives da plateia).
A narrativa se exime de chavões do gênero como os flash-backs que reportam detalhes das vidas de algumas personagens. Não há nem fash-fowards, intercessões que avançam no tempo. Tudo é centralizado no voo, o “sem escalas” do próprio titulo brasileiro. E neste ponto lembra o que os Cuarón (Alfonso e Juan) fizeram agora com “Gravidade” onde toda a ação se dá no espaço sideral.
Mantendo o clima em tempo e lugar bem delimitados, o filme repousa nas performances que se destacam em cada situação e, assim mesmo, sem detalhar o perfil da maioria dos passageiros do avião. O que mais se torna evidente é o protagonismo de uma mulher, Jean Summers (Juliane Moore), passageira acostumada a viajar que de inicio luta para conseguir um lugar perto da janela. Isso gera a primeira suspeita. Mas ela é quem passa a auxiliar o personagem da história, Bill Marks (Neeson). Daí a ação se desloca para a pista deixada pelo médico que atende alguns passageiros mortalmente feridos, o arabe Frahim Nassir (Omar Metwally). Por vestir-se como seus patrícios, o doutor é um suspeito “nato”. Por outro lado, os sherlocks de plantão desconfiam de tipos muito marcados. Bem, não adianta ir muito longe na trama. Como todo filme do gênero “Sem Escalas” propõe surpresas. E não deixa fugir o suspense quando passa a ser conhecido de todos que além da ameaça de morte por passageiro há uma bomba a bordo. E onde está esse artefato? Num pacote de cocaína...na bagagem de algum dos passageiros. Não há pista sobre isso.
O filme apresenta orçamento relativamente, quase sem custo, lançado em Belém (e só chegou por isso) estando durante duas semanas na frente dos blockbusters na lista de maiores sucessos de bilheteria nos EUA. Bom para o ator de “A Lista de Schindler” que agora se especializa em tipos de heróis ou vilões colocados em situações perigosas.
Uma boa diversão. Nada mais que isso e nada mais se pede disso.



NINFOMANIACA 2

Charlotte Gainsbourg em Ninfomaníaca - Parte 2

Na primeira parte do depoimento de Joe (Charlotte Gainsbourg, “Ninfomaníaca 1”) ao intelectual Selligman (Stellan Skargärd) que a encontra ferida num beco próximo a sua casa, ela expõe o seu tropismo pela atividade sexual desde adolescente, começando quando, ainda criança, deitada na relva, próxima a um bosque, seu pai diz-lhe que tem afinidade espiritual por uma arvore, e vê um vulto que a convida a levitar. Nesta segunda parte - “Ninfomaníaca 2” (Nimphomaniac 2, Dinamarca, 2013) segue o depoimento a Selligman e se inicia com um replay da sequência, explicando ao seu ouvinte que há algo emblemático naquela aparição aos 12 anos, deitada na relva. Pensa ter visto duas figuras femininas ao lado de uma luz intensissima e sente prazer. Seria a Virgem Maria? Na parede da casa de Selligman está um ícone da igreja oriental com a imagem da santa (um quadro tradicional muito visto no ocidente). Ele explica que há uma divergência fundamental entre as igrejas orientais e ocidentais. Na primeira, estaria a busca da felicidade, na segunda o encontro com a tristeza – ou a dor (culpa, castigo, mal). No caso de Joe, ela estaria deixando a primeira igreja e entrando na segunda ao narrar a ausência de orgasmo. O filme ganha esse aspecto religioso inusitado. 
Joe procura o meio médico quando se une a Jerôme e ao filho gestado, ao perder a faculdade de sentir orgasmo. Alimenta o retorno ao desejo e busca quem consiga fazê-la sentir prazer no sexo. E outra vez o filme volta à questão do amor e dor, no “tratamento” a que a jovem se submete com um terapeuta que usa artificios ardilosos chicoteando-a com um objeto mais contundente do que um açoite comum. Nesse ponto, Selligman acha que é mais um fator místico (40 chicotadas é de uso romano no primeiro século da era cristã). E quando Joe perde tudo (familia e trabalho), sentindo necessidade de se empregar para subsistir, o “emprego” é suborno sexual às pessoas. Para isso conhece Pe, uma jovem de passado polêmico, com um defeito na orelha como uma espécie de marca da sua gênese patológica. Trata a moça como filha/amante, mas chega o momento em que isso não dará bom resultado, ou, como diz Selligman, não a afasta do caminho do mal.
O filme é dividido em episódios e nisso cabe a ironia que dilui o trágico e corta um possível liame melodramático. O último episódio chama-se “A arma” e na concepção religiosa que sempre acoberta a ação há o momento em que o uso de um revolver, pela mulher que durante a vida turbulenta aprendeu de tudo, falha na hora precisa. Mas não falhará uma segunda vez se alertado antes pelo ouvinte & conselheiro.
 “Ninfomaniaca” passa por cima do conceito freudiano do excesso sexual. O que seria um caso clínico, não só ganha o aspecto alegórico aliado à religiosidade como a um constante desencontro entre o desejo e a razão, com um elemento tentando compreender o outro e a busca pela felicidade passando por tormentosos caminhos moldados pelo comportamento social.
Na parte 1 e 2 de “Ninfomaníaca” é clara a discussão a que remete o diretor em torno da sexualidade e do amor, considerando que uma não tem nada com o outro. Se se observa o momento precursor dado a perceber sobre essa evidência vê-se que a narração de Joe sobre a aparição que a faz levitar aos doze anos, com esse ato levando-a ao orgasmo, ela está só e se sente entregue às luzes, iniciando a estimular sua sexualidade e gostando do que sente. Com Jerôme e o filho Marcel, na estrutura familiar tradicional, perde o que sentia e deixa de gostar de si. Prefere buscar na dor o retorno à sensação de desejo pelo prazer de sentir-se.

Desta vez Triers distanciou-se profundamente do seu estilo “Dogma”, aquela linguagem que se propunha a desprezar todas as conquistas formais do cinema e tentar uma filmagem realista ao extremo, com câmera na mão, luz natural, atores sem maquilagem e edição extremamente simples, quase sempre apegando as sequências na ordem direta da gravação (tal como se fazia no cinema amador). Tanto a primeira como a segunda parte de “Ninfomaniaca” usa a linguagem linear e se esmera nas interpretações. Isso não diz que o filme se realize de todo, mas fica mais fácil de ser observado e, sequer, interpretado. Filme muito bom. 

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

A DISPUTA PELO OSCAR


Chiwetel Ejiofor em "12 Anos de Escravidão"

Neste domingo, 02/03, a indústria norte-americana de cinema fará a escolha e a entrega dos filmes selecionados na competição pelo Oscar-2014. Quem curte cinema deve estar “grudado” na TV (creio que no canal TNT) para assistir a cerimônia tradicional que premia o que essa indústria acha o melhor do período.
As escolhas premiadas com a estatueta do Oscar não se acertam, geralmente, com a versão da critica de cinema. E é fácil de compreender quando se sabe que se trata de um premio concedido pelos produtores de cinema, aqueles responsáveis por pagar os custos desse ramo industrial e artístico. Por isso é que há casos extremamente constrangedores como saber que Charlie Chaplin, Orson Welles, Stanley Kubrick, Buster Keaton, Alfred Hitchcock, nomes fortes do cinema norte-americano não ganharam Oscar por seus filmes. Alguns deles receberam, quando muito, um premio honorário. E quando são enumerados os melhores filmes de todos os tempos fica-se surpreso saber que a maioria não ganhou Oscar. Mesmo produções norte-americanas.
Mas o Oscar é uma festa e o cinéfilo, tipo fã de cinema, gosta de ver as estrelas desfilando e vibram na porfia entre filmes & atores e técnicos. Para quem desconhece a dinâmica da seleção esta se faz da seguinte forma: cada categoria é votada por seus membros, ou seja, ator vota em ator, atriz em atriz, os técnicos, em sua especialidade. Apenas para selecionar o melhor filme todos votam. Todos, quer dizer, os associados/as da Academia de Artes e Ciências de Hollywood, entidade criada em 1927, com a primeira entrega formal da estatueta em 1929 (na competição, filmes de 1927 e 1928).
Este ano concorrem na categoria de melhor flme os seguintes títulos: ”12 Anos de Escravidão” (o favorito nas pesquisas), “Trapaça”, “Ela”, “Gravidade”, “Capitão Philips”, “Clube de Compras Dallas”, “Philomena”, “O lobo de Wall Street” e “Nebraska”. Nas apostas virtuais quem está mais cotado é “O Lobo...”, com 27%, seguindo-se “12 anos...” (16%).
Os atores concorrentes são: Matthew McConaughey (Clube de Compras Dallas), Bruce Dern (Nebraska),Chiwetel Ejiofor (12 Anos de Escravidão), Christian Bale (Trapaça) e Leonardo di Caprio (Lobo de Wall Street). As atrizes: Cate Blanchett (Blue Jasmine), Sandra Bullock (Gravidade), Meryl Streep (Vida em Família), Judi Dench (Philomena) e Amy Adams (Trapaça). Evidentes nas pesquisas diversas estão Matthew McConaughey e Judi Dench.
Os diretores que disputam prêmio: Alfonso Cuarón (Gravidade), Steve McQueen (12 Anos de Escravidão), David O.Russel (Trapaça), Alexander Payne (Nebraska) e Martin Scorsese (O Lobo de Wall Street).
E vou me limitar às preferências dadas por menções em outros certames: Jared Leto, o travesti de “Clube de Compras Dallas” corre emparelhado com Barkhad Abdi, o somali visto em “Capitão Philips”. Sally Hawkins mereceria por “Blue Jasmine”, mas há uma onda em torno de Jennifer Lawrence por “Trapaça”, um papel sem signficação para esse endeusamento (ela venceu no “Globo de Ouro”). Não surfo nessa onda.
O roteiro original está sendo marcado pelo trabalho de Spike Jonze, de “Ela” (Her), por ser muito imaginoso. Se for isso mesmo, estou com ele. O roteiro adaptado seria de “12 Anos de Escravidão”.
Quanto à fotografia e o mais em técnica fica mesmo com “Gravidade”, uma surpresa na linha de sci-fi que também aproximou o introspectivo, colocando os problemas de uma médica que perdeu a filha e que se vê perdida no espaço sideral onde, como diz o prólogo, não se pode viver.
O filme de animação deve agraciar “Frozen”, embora concorra Hayao Myazaki com “Vidas ao Vento”, que ainda não surgiu por aqui, mas o nome do cineasta japonês é “hors concours”, merece respeito e ainda mais agora quando afirma que vai se aposentar.
O documentário longa-metrgem pode premiar “O Ato de Matar”, de Joshua Oppenheimer, que pessoalmente eu colocaria de fora da competição. Na categoria de filme estrangeiro há dois bons exemplos: “A Caça” (Dinamarca) e “O Circulo Quebrado” (Belgica). O favorito, “Grande Beleza” é um decalque de Fellini sem a genialidade do mestre.
E tem a maquilagem de “Vovô Sem Vergonha” e o figurino de “12 Anos...” E por ai vai a premiação e a festa da indústria das mais badaladas do mundo.
Muitos desses filmes foram exibidos em Belém. Outros já estão na internet para download. Assim, quem tiver interesse e disposição é só ir ao virtual e pedir para ver/baixar o tal título. E estar bem na foto na hora da competição.


CAÇADORES DE OBRAS PRIMAS

Elenco all star em uma caçada inédita

No fim da 2ª Guerra Mundial os líderes dos países aliados se deram conta de que Hitler roubara tesouros artísticos dos países conquistados para fornar o futuro Museu do III Reich ou presentear seus generais de vultuosos ornatos em suas salas de estar.
Adolph Hitler era um pintor frustrado, segundo sua história. Antes de se inscrever na carreira militar e como ditador tentou a Academia de Artes e foi reprovado. Tinha ódio da arte moderna e prometia vingança contra os que o desprezaram.
Devido a esses saques em museus, os norte-americanos formaram uma brigada reunida em uma equipe de civis para penetrar nos territórios onde teriam estado os alemães e retirar o material roubado de onde estivesse.
O fato histórico gerou o livro de Robert M. Edsel e o filme “Caçadores de Obras Primas”(The Monument Men, EUA, 2014) com roteiro de Grant Heslov e de George Clooney  com direção e atuação deste último.
No enredo, acompanha-se a tarefa de Stokes (Clooney), Granger (Matt Damon), Campbell (Bill Murray), Garfield (John Goodman), Jean-Claude (Jean Dujardin), Savitz (Bob Balaban) e Epstein (Dimitri Leonidas), guinados à postura militar na tarefa nada fácil de entrar em zona perigosa, com minas espalhadas pelo chão, sabendo que os quadros e as estatuas roubadas poderiam não estar apenas em um local, mas espalhados/as em todo o território de diversos paises, para facilitar o envio para a Alemanha.
O assunto é dos mais interessantes mesmo se sabendo que a 2ª Guerra já explorou muita matéria tratadas na literatura e no cinema. Mas o filme ora em exibição internacional só não foi um fiasco devido aos nomes que compuzeram o elenco. São atores competentes, contando ainda com a participação (sem razão de ser, diga-se) de Cate Blanchett (a atual favorita do Oscar por “Blue Jasmine”). A equipe transita por sequências descosturadas, sem uma forma que implique em emoção por parte de quem está na plateia. É o tipo da aventura mal contada, com insuficiência na configuração das personagens de forma capaz de dimensioná-las e jogando as situações em esquetes, sem unir os fatos de maneira a que se os acompanhe com interesse.
Desta vez George Clooney falhou no que antes se mostrou mais interessante, como em “Boa Noite, Boa Sorte” (Good Night and Good Luck, EUA, 2005) e “Tudo Pelo Poder” (The Ides of March, EUA, 2010). Nesses trabalhos em que surgiu no roteiro associado ao mesmo ator-escritor Grant Heslov, o enfoque resvalava o real com base sólida e com uma narrativa coesa. A dupla busca igualmente uma fonte histórica, mas como o assunto era mais vasto, creio que ficaram um pouco perdidos. Pode-se lembrar avaliando a atuação das personagens aos prisioneiros feito soldados em “Os 12 Condenados” (Dirty Dozen, 1967) de Robert Aldrich, onde é possivel observar que fica faltando uma costura da motivação para que se acompanhe a aventura com interesse. O filme é longo e deixa que se sinta a prolixidade, mesmo sabendo que a historia pedia que se observassem as várias etapas da busca pelas obras de arte roubadas, percorrendo mais de dois países, e dando margem a sacrifícios como de dois dos membros da equipe mortos em trabalho. A cena da morte de Jean Claude/ Dujardin é um dos momentos sensíveis do filme, com ele achando ser “ridículo” o seu padecimento através de um franco atirador e pedindo ao colega, interpretado por John Goodman que enderece uma lembrança à sua família. Há toda a sorte de evidências de que essa “missão” de recuperar obras de arte, também é questionada por muitos militares que consideravam ser inadmissível salvar a arte e deixar morrerem pessoas. O que vale isso? diziam eles. Embora coerente, a emissão desse dilema entre morte e mortos, arte e vida ao se deparar com os achados que foram produtos de saque dos mandados de Hitler, o público sente que aquela missão se torna impactante. E cada vez mais, à medida que se vai adentrando novas invasões de Hitler nos caminhos do mundo e responsável pela quase dizimação de um povo e de toda a produção deste sente-se mais  e mais a necessidade de lutar contra essa ideologia que de vez em quando dá mostras de emergir.
“Caçadores....”não é um filme ruim. Apenas se percebe que podia ser melhor.


CLUBE DE COMPRAS DALLAS

Matthew McConaughey num grande desempenho. Provável Oscar

A primeira sequência de filme “Clube de Compras Dallas” (Dallas Buyers Club, EUA, 2013  ) mostra, nos bastidores da arena onde cowboys desafiam o tempo de permanência montados em touros ou cavalos selvagens, o eletricista heterossexual Ron Woodroof (Matthew McConaughey) fazendo sexo com alguém. No fim do filme volta-se à arena e ao personagem, mas ele aparece montado num dos touros em competição e sai acenando orgulhoso o seu equilíbrio, congelando-se o plano.
Esta elipse, comparando prefácio e epílogo do filme dirigido pelo canadense Jean-Marc Vallée, evidencia o drama do personagem que se torna vitima da AIDS, adquirindo o vírus HIV de suas porfias sexuais e uso de drogas, sendo diagnosticado em 1985 e cujo período de sobrevida de apenas 30 dias. Woodroof se nega a aceitar esse prognóstico conseguindo sobreviver na época em que a doença matava incontinente. Primeiro apela para a aquisição camuflada da medicação em uso nos hospitais, o AZT, depois, como seu fornecedor se nega a vender-lhe a dose necessária, indica-lhe, entretanto, um médico e pesquisador mexicano que poderia ajudá-lo. Até então em fase experimental, sem liberação para o consumo pela FDA dos EUA, Ron não só adquire para si o medicamento, mas para outros com o mesmo problema, criando empresa com taxa para associados ao custo de 400 dólares mensais. Embora ainda homofóbico, sua maior aproximação passa a ser com Rayon (Jared Leto), seu parceiro no hospital.
O filme é exclusivamente do ator principal. Poucas vezes se vê no cinema um empenho tão grande por um papel. Matthew emagreceu cerca de 20 quilos, reforçou a maquilagem para se mostrar mais debilitado, usou uma expressão corporal incomum, expandindo suas atitudes e ganhou presença em quase todos os planos. É um trabalho exaustivo que eleva o filme ultrapassando algum percalço do roteiro, um pouco fragmentado, mesmo seguindo linearmente a historia do homem que se ufana de “machão”, repelindo o diagnostico de uma doença ligada aos homossexuais, àquela altura marcada pelo preconceito sobre a sexualidade na “terra dos hetero”, e de sua luta pela cura contra todas as estimativas médicas de seu tempo.
Vallée que dirigiu o muito bom “C.R.A.Z.Y.”(2005) também consegue um desempenho de coadjuvante excelente em Jared Leto como o travesti Rayon. Basta compara com o Nemo de “Sr. Ninguém”, o filme do belga Jaco Von Dormael. Os dois atores, Leto e Matthew, disputam o Oscar no próximo domingo, com o primeiro sendo o favorito, mas os dois já premiados no recente “Globo de Ouro”.
“Clube de Compras Dallas” é, sobretudo, a luta pela vida. Por  mais que o tipo do cowboy se mostre uma pessoa sofrida, e isso se vê quando procura tratamento alternativo para o seu mal e encontra um médico exilado do meio profissional, um pesquisador voluntário que lhe oferece a chance de usar não só o AZT, mas uma combinação com proteína capaz de estancar o efeito do vírus sobre as defesas de seu organismo deixa o tipo com a chance de se vangloriar da passagem do tempo marcado por quem primeiro o atendeu em um hospital.
Ron doma a doença como doma o animal que monta. E não pára seus hábitos durante o tratamento que faz, continuando a usar cocaína e a fazer sexo sem precaução. E vai além da ousadia com o seu próprio corpo: ganha dinheiro contrabandeando as drogas anti-HIV para pessoas que necessitam. Forma um verdadeiro laboratório paralelo e isso chama a atenção das autoridades levando o caso a julgamento. Com todos os empecilhos, o doente sobrevive 7 anos, além da estimativa dada pelos clínicos, ganhando a confiança de uma médica que se admira da coragem dele.
O filme se baseia em fatos reais e o roteiro de Craig Borten e Melisa Wallack veio de uma conversa com o próprio Ron Woodroof. É desses trabalhos que nos créditos afirmam se tratar de fatos reais. No caso, uma realidade surpreendente que acaba ganhando feitio de homenagem mesmo em se tratando de um contraventor.
Mas não é só isso. O caso de Ron é mostra, pelos roteiristas, as engrenagens da agencia farmacêutica e as barganhas que os laboratórios realizam para “vender” seus produtos mesmo a custa de vidas humanas, o que já foi denunciado, inclusive, por Fernando Meirelles em “O Jardineiro Fiel (2005) envolvendo governos e multinacionais nas tramas do setor financeiro.

O lançamento do filme em Belém está em poucas sessões, numa sala distante do centro da cidade.

PHILOMENA


Judi Dench e a verdadeira Philomena Lee 

Do autor e apresentador de rádio e televisão inglesa, primeiramente da BBC, Martin Sixsmith, o livro-reportagem “The Lost Child of Philomena Lee” foi escrito (1ª edição) em 2009. Sua trascriação para o cinema seria um passo. Poucas histórias são tão interessantes, indo da denúncia ao comovente realismo. E chegou por mãos certas: o diretor inglês Stephen Frears (de “A Rainha” e “Herói por Acidente”) através de um roteiro escrito pelo ator que protagoniza Sixsmith, Steve Coogan, sendo seu parceiro Jeff Pope.
O argumento focaliza uma adolescente órfã de mãe que engravida do namorado e por isso o pai, seguindo o comportamento tradicional da sociedade dos anos 50 (nem era o século XIX, diga-se), encaminha-a para um convento onde irá ter o filho e sair da vista de pessoas ligadas à família por ter dado um “mau passo”.
Philomena passou muitos anos com as freiras, em trabalhos pesados na lavanderia do convento. Nos primeiros anos, o menino, Anthony, vivia ao lado de outras crianças, no mesmo local onde suas mães estavam (nas mesmas condições de reclusas pela gravidez fora do casamento), embora estas soubessem que em algum momento os filhos seriam adotados por outros. Certo dia, Anthony e a filha de uma das amigas de Philomena são levados por um casal norte-americano.
A investigação em torno do paradeiro do menino é a base do livro e filme. Seria uma reportagem do cético repórter, mas ele acaba achando melhor passa-la para um livro. Ateu convicto ele critica severamente a Igreja Católica ainda mais por ser recebido de forma rude por uma freira do tempo em que Philomena chegou ao convento, esta já muito idosa, em cadeira de rodas, e agressiva no modo como responde às perguntas sobre a adoção de crianças.
O enfoque dado ao caso e, consequentemente, drama de Philomena era uma das práticas assumidas pela sociedade do século XIX, seguindo-se depois como norma social (vide “O Garoto” de Chaplin) em todos os locais aonde a igreja católica impunha a dimensão institucional do sexo pelo casamento porque segundo os preceitos dessa crença este estado civil era o único meio consentido da reprodução humana. E, dessa forma, impunham-se várias maneiras de as jovens que praticavam o sexo fora do casamento e engravidassem serem punidas, com os filhos colocados nas célebres “rodas de expostos” das casas de misericórdia e/ ou seus pais, para castigá-las, internassem-nas em conventos administrados por irmãs de alguma ordem religiosa. Ai elas pariam os filhos, ficando estes sob a guarda destas freiras que colocavam as crianças para adoção, quando na verdade, elas faziam dessa ação um comércio. Pelo menos em grande número desses conventos. E esse detalhe foi descoberto na investigação do filho de Philomena.
O roteiro do filme insere sequencias do passado da mulher/mãe de forma muito sutil, sem quebrar o ritmo da narrativa no tempo da ação. E imagens de filmes caseiros mostram o verdadeiro Anthony, que passou a se chamar Michael (Sean Mahon).
Seria muito difícil transmitir o drama de Philomena sem o protagonismo de uma grande atriz. E Judi Dench cumpre a tarefa de mostrar o sofrimento da mãe que busca o filho pelo tempo e espaço, agarrando-se a detalhes que a possam levar a ele. Quando ela é assessorada por Sixsmith a tarefa é saber de um imigrante irlandês (a família de Philomena e ela própria são irlandeses) quem adotou a criança. Através de uma busca digital chega-se a um diplomata que trabalhou nos governos Reagan e Bush, achando-se inclusive fotos do rapaz com o presidente norte-americano.
A narrativa é um modelo de recriar um enredo. Não evidencia momentos específicos apenas deixando closes de Judi Dench em lagrimas e da freira que a acompanhou na época da adoção e que recebeu de forma rude o escritor que deseja saber como seu deu o processo de adoção, no caso, para amenizar uma preocupação da mãe, se o filho pensava nela.
Uma jornada da Irlanda pelo interior da Inglaterra e depois pelos Estados Unidos vai abrindo espaço para se conhecer Michael, ou Anthony, e de se chegar às repostas que satisfaria a mulher/mãe.
Um filme excelente, desses que exige aplausos no final da sessão. Está candidato a 5 Oscar e domingo último ganhou o Bafta (premio inglês) de roteiro adaptado. Econômico, preciso, instigante para as vertentes reflexivas que se abrem sobre a história das mulheres sem que isso seja o eixo central. Imperdível.


A CURANDEIRA E CANTINFLAS: VIDEOS CIRCULANDO...





A atriz porto-riquenha Miriam Colon protagoniza a curandeira 
A novela que se tornou best-seller do escritor norteamericano Rodolfo Anaya, “Bless me, Ultima” (1972), baseou o filme  “Abençoe-me, Ultima-A Curandeira”(Bless me, Ultima, EUA, 2012) e em sua estreia norte-americana satisfez os leitores e os espectadores mais exigentes. E não é fácil, por certo, captar a sensibilidade do original que transparece no roteiro do filme.
Trata de uma benzedeira do interior do Novo México, no período da 2ª Guerra Mundial, que é abrigada na casa de um pequeno fazendeiro e ganha a amizade de um menino de 6 anos, Antonio, de quem fizera o parto, pois, também assumia essa profissão na comunidade. A mulher é muito hábil no conhecimento de plantas aplicando-as na medicina natural e em curas com remédios caseiros. Num desses casos trata do filho de um vizinho da fazenda que está em coma desde que circulou numa floresta conhecida por ser refugio de bruxas. O fato desperta polêmica porque das três mulheres consideradas bruxas, filhas de um outro fazendeiro, duas delas vem a falecer, sendo apontada como culpada a velha curandeira que quebrara o feitiço responsável pelo adoecimento do rapaz. Por isso, o pai das moças jura vingança contra a benzedeira, Ultima, e/aos membros da família que a abriga.
Narrado na terceira pessoa, o filme consegue retratar o ambiente interiorano, ressaltando comportamentos de pessoas simples, sem grandes estudos, presas a preceitos terapeuticos alternativos, e ainda focaliza bem o papel da igreja local, chegando a um menino que se diz esquecido de Deus porque morreram seus pais e um irmão, deixando-o só no mundo. E o tratamento do pároco da igreja a ele é um libelo autoritário e discriminador.
“Ultima” não é só um relato no estilo fantástico peculiar às produções de Waklt Disney: é um filme denso, sem arroubos melodramáticos, com sequências e diálogos que ficam na memória do espectador (a exemplo, uma conversa do pai com filho de 8 anos em que o primeiro exprime uma sentença de sábio sobre como se deve enfrentar a vida, diferentemente do que o padre do local estava impingindo ás crianças nas aulas de catecismo).
Um excelente filme que só nos alcança em DVD. O diretor é Carl Franklin, mais conhecido como ator negro de filmes e séries de TV. A atriz porto-riquenha Miriam Colon protagoniza a curandeira e brilha em uma interpretação difícil. E o menino Luke Ganalon, convence plenamente como Antonio. É ele quem conta a história. As filmagens em locação revelam a beleza da zona rural onde se passa a historia.
Filme inédito em nossos cinemas.
“Se Eu Fosse Deputado”(Si yo fuera deputado, Mexico, 1952) é o segundo filme interpretado pelo comediante mexicano Mario Moreno Cantinflas que circula em DVD no Brasil. Esse ator protagoniza um barbeiro do interior do Mexico que por ser amigo de um velho advogado e representar a paixão da filha deste, aprende, em meio a sua ingenuidade de baixa escolaridade, alguns preceitos jurídicos e consegue cativar a população pobre a ponto de ser lançado como candidato ao cargo de deputado em confronto com um mafioso local.
O diretor Miguel M. Delgado foi um dos que mais trabalhou com Cantinflas. Neste exemplar, as gags verbais, sempre o forte do comediante (cantinflas quer dizer “embromador”), não prejudicam a comédia. E deixam bons momentos hilários como quando o personagem investiga a infidelidade da esposa de um comerciante local.
Um dos pontos altos do filme é quando o barbeiro, que é fã de música, é guinado a reger uma orquestra na ocasião em que foge da policia. A sequência é longa, mas bastante engraçada.
Cantinflas era muito popular no Brasil e seus filmes alcançavam Belém. Na época, o cinema mexicano era dividido em filmes em que ele atuava, ou seja, onde havia o cunho hilário, os melodramas com base em boleros (um dos ritmos bastante popular nas camadas sociais) e nos dramas rurais dirigidos por Emilio Fernandez (“El Indio”), com a aplicação da fotografia captada por um mestre dessa arte: Gabriel Figueroa.



terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

O QUE RESTA


"Was Bleibt", o filme alemão em exibição no Olympia. Até 5a. feira.

Um filme de família e sobre familia. Esta frase dimensiona melhor “Was Bleibt” (O Que Resta/Alemanha, 2012) um dessas produções que eram realizadas em Super 8 e hoje recebe o foco de uma câmera de vídeo (ou mesmo celular). Não precisa de inicio, efeitos fotográficos. Acompanha-se a luz ambiente e focaliza, no caso, filhos que vão ao encontro da mãe, que mora só em uma casa próximo a uma floresta, assim como o marido desta, ora separado e já vivendo com outra mulher.
No enredo focaliza-se um fim de semana familiar que poderia ser alegre como esperavam os irmãos Marko e Zowie convidados pela mãe Gitte para comemorarem uma boa notícia: depois de 30 anos ela abandona os anti-depressivos e se mantém com medicação alternativa. Seu marido Gunter também espera os filhos com uma outra novidade: vendera sua editora, uma empresa de publicação e espera se dedicar á pesquisa com planos de viajar para a Jordânia. As duas notícias são mal recebidas por Marko – que está na casa dos trinta anos, acaba de publicar seu primeiro livro, e foi viver em Berlim desde seus dias de universidade. E Zowie, que estudou medicina mas vive  de um consultório de dentista nas proximidades dos pais, também não aceita aquela nova situação
Eles pensavam encontrar bem humorados e saudáveis a mãe, Gitte, e o pai Jacob. Mas, na primeira refeição juntos sabem que a mãe abandonara um tratamento médico para uma doença que não se define. Ela se limita a tratar de pessoas com medicamentos naturais (na primeira sequencia, quando os filhos chegam, ela está com uma paciente deitada na sala) e acha que não mais precisa de medicação alopata. Apreensivos com a atitude de Gitte, e mais ainda quando sabem que Jacob pretende viajar para lançar seus livros, embora há 30 anos cuide da esposa com um alto nível depressivo, sentem uma sensação de desmoronamento naquele lar para onde vieram festejar a aproximação e pelo fato dele ter contado a ela que tem outra pessoa.
A reação de Gitte, que não se mostra de súbito, é pegar seu carro e sair. Não diz aonde vai nem volta. Na procura, os parentes encontram o carro dela à beira da estrada que margeia a floresta. As buscas pela mata não surtem efeito.
O filme tem uma narrativa muito simples e sua densidade ser faz através dos desempenhos excelentes de todos os atores e a na modulação da luz em alguns planos. Sabe-se por esses recursos, que irmãos e pais custam a se entender num encontro que deveria ser só alegria. E isso ganha um tom dramático quando a mãe sai de cena.Ha sequencias de noite na mata quando os filhos, especialmente Marko, procura desesperadamente pela mãe. E numa dessas investidas, o roteiro de Bernd Lange é aproveitado pelo diretor Hans-Christian Schmi para uma licença de realismo fantástico. Não convém contar porque é um dos pontos altos do filme. Basta dizer que é um recurso muito engenhoso de se mostrar como o rapaz que é escritor enfrenta o que pode ser a morte de sua querida mãe.
Vendo o filme de Schmid lembrei-me de dois títulos bem expressivos sobre reuniões de família: o “Family Life”(Vida em Familia/1972) do inglês Ken Loach e “Festa de Familia”(Festen/1998) do dinamarquês Thomas Vinterberg.   Nesses filmes também uma reunião familiar é motivo para que se evidencie problemas de cada membro e como eles entram em conflito uns com outros.
O filme alemão que pode visto até a próxima quinta, 20/02 no Olympia é um exemplo de como o cinema pode chegar à intimidade das pessoas como se fizesse parte do grupo de pessoas focalizado. A câmera é como mais um membro da família Heidtman, observando o que se passa de forma passiva, apenas deixando que a gente ache absurdo algumas atitudes, como a precipitação do patriarca quando do sumiço de sua esposa.
Um bom filme que a gente desconhecia de informações criticas internacionais.