sábado, 4 de junho de 2022

PUREZA, O DOCUDRAMA, E A ODISSEIA DA VIOLÊNCIA

 

Dira Paes representa Pureza, a mãe em busca do filho e a denúncia da escravidão moderna 

Uma prática contumaz de minha escrita é revelar alguns pontos que às vezes preciso expor para o reconhecimento de minhas reflexões, desvelar uma história de vida. A avaliação que fiz após assistir ao filme “Pureza” (Brasil, 2019, 1h41min), deixei para um texto final. Preferi tratar do filme e, na conclusão, essa seção da minha experiência de pesquisa sobre as conflito de terras com personagens entrevistadas, pode ser registrada.

Dirigido por Renato Barbieri, com roteiro do diretor e de Marcus Ligocki Júnior, tendo como protagonista a atriz Dira Paes, além de outros atores coadjuvantes, o filme tem base na história real de Pureza Lopes Loyola, moradora na zona rural, que sai em busca do único filho há muitos meses sem dar notícias, desde que se aventurou em busca de novos trabalhos que tirassem a mãe e ele próprio da vida miserável que levavam no interior maranhense, numa olaria precária. No desenrolar de uma caminhada urbana a mulher percebe que ninguém viu nem conhece seu filho, mesmo apresentando uma foto em que ele poderia ser reconhecido. E nesse percurso vai sabendo de outros locais de trabalho que são possíveis de o filho estar na lida. Segue essa procura, o filho em primeiro lugar, e enfrenta qualquer obstáculo desde que consiga descobrir seu paradeiro. Consegue trabalho em uma fazenda e se depara com situações assustadoras, de maus tratos e violência e escravidão até o momento em que é possível reconhecer que a ousadia de percorrer tantos caminhos também justificam uma denúncia sobre a dimensão escancarada da violência.

Esta síntese de uma argumentação da história das caminhadas de Pureza, a mãe que ama o filho e objetivamente exige-se encontrá-lo, a meu ver, expressa-se em três atos, na construção do roteiro e realização do filme.

O primeiro ato é a exposição de um perfil provisório (forma inicial de apresentar esse aspecto) sobre essa mãe-mulher. Essas sequências apontam para as condições de sub-trabalho de Pureza e do filho Abel, a penúria em que vivem numa casa desconfortável, o tipo de produto produzido – tijolos precários – e, sem dúvida, forma de pagamento ainda mais precária. É a miséria que briga com a necessidade para garantir-lhes a sobrevivência. O filho opta por um começo em novos trabalhos, fora de onde vive. E a mãe, sem notícias dele deixa tudo, trabalho e casa, meses depois dessa situação.

Veja-se, o corte temporal entre a saída do filho, de casa, e o tempo em que ela vai em busca de notícias, traz as referências na fala de Pureza aos interlocutores por onde circula. É uma forma de evidenciar que houve um tempo em que ela esperou por ele e não contatou. É uma estratégia estética entre o tempo passado e o tempo presente sem que haja um indicativo sobre isso.

O segundo ato que expõe outros aspectos do filme é quando a personagem Pureza vê uma oportunidade de chegar até ao filho se aproximando de um grupo de trabalhadores reunidos para embarcar para outra cidade, uma vez que seu percurso busca outros rumos. As fazendas dos municípios paraenses estão contratando trabalhadores. O responsável pela articulação é claro e decisivo quando pronuncia seu discurso de excitabilidade aos que estão no grupo, ansiosos por qualquer trabalho. E Pureza é incluída na vaga da cozinheira que faltou ao encontro. Ela estava lá por outro motivo, mas vê que pode dar conta do “serviço”. Mulher é sempre vista como doméstica, cozinheira e tudo nessa linha do sub-trabalho feminino.

O terceiro ato é a vivência da mãe no processo de trabalho na cozinha dos chefes, local onde também foi instalado um sistema de radioamador. Entre as tarefas domésticas, o contato com os trabalhadores, e principalmente com os chefes, Pureza atende aos chamados a estes, pelo rádio, e sua primeira pergunta é sobre o filho. Assiste à violência contra os trabalhadores, a falta de salários conforme o prometido, o tratamento aos que se rebelam para deixar o emprego e a violência contra os que enfrentam as regras. Morte, trabalho escravo e poder sobre a vida de todos é um aspecto que ela observa e se revolta, pois supõe esse tratamento ao próprio filho. Às vezes trata os trabalhadores com carinho, ou lhes leva alimentos. E, na observação desses sofrimentos, consegue uma licença para ir à cidade e então começa uma outra fase em que se engaja para denunciar aquele estado de coisas.

Por que dividir em atos este texto reflexivo sobre a elaboração do roteiro e a realização do filme? Na verdade, a noção que é evidenciada e esse aspecto não muda, uma assertiva singular porque discriminada pelo imaginário social, é que Pureza vai até as últimas consequências – tarefeira, militante e ousada – pela sua condição materna. Esse aspecto é central na estruturação da narrativa e por isso vejo uma estética inventiva latino-americana, ao avaliar, por exemplo, os escritos de Silvia Oroz sobre o melodrama, o cinema de lágrimas. Não que o público se debulhe em lágrimas ao assistir ao filme, mas este deixa ver o que tem maior repercussão no embate político assumido, nas “considerações finais” pela mãe de Abel.

Considerei “Pureza” numa estética de docudrama, que segundo os textos que li “é um estilo de documentário que apresenta de forma dramática a reconstituição de fatos, utilizando-se atores para isso. Podem ser representados assuntos contemporâneos ou eventos históricos (Compact Oxford English Dictionary).

No caso de “Pureza” isso ocorre. E o diretor apresenta, nos créditos finais, as consequências de edição de políticas com o avanço das denúncias de Pureza Lopes Loyola.

Gostei muito do filme. Li algumas críticas inclusive questionando a condição da mãe como algo extemporâneo.

A estética latino-americana precisa ser valorizada e os filmes brasileiros, nessa linha de denúncia, devem utilizar dela e sair das “caixinhas anglo-americanas”.

 

UMA HISTÓRIA PESSOAL: COMO ENTENDI “PUREZA”

Nos anos 1980 eu estava definindo o tema de discussão de um projeto para o mestrado com pretensão de apresentar ao NAEA, uma pós-graduação a qual eu poderia tratar do problema que eu já havia definido: as mulheres na luta pela terra na Amazônia. Esta questão emergira pela permanente convivência na CPT – Comissão Pastoral da Terra – levada por Isabel Tavares da Cunha, grande amiga e parceira na militância pública e que estava atenta à violência que eclodia nos “conflitos entre os grandes proprietários, amparados pelo governo e economicamente poderosos, e os pequenos posseiros isolados e desprotegidos, invariavelmente os perdedores. Muitos morreram vítimas de pistoleiros, outros fugiram das fazendas onde viviam em regime de semiescravidão.” (CPT-CPDOC).

Percorrendo alguns municípios onde as mulheres dos trabalhadores rurais monitoravam a presença de seus maridos presos, sentadas nas portas das cadeias, haja vista que à noite os milicianos os levavam para Belém e/ou “desapareciam” com eles, considerei que esse era o meu tema-base para estudar. Fiz várias entrevistas com pessoas integradas aos movimentos sociais entre os quais, o Humberto Cunha e outros nessa linha indicados por ele. Sistematicamente esses encontros eram em locais que só se sabia na hora da entrevista. E foi nessa condição de pesquisadora e militante do movimento de mulheres que percebi os conflitos de terra, o processo de semiescravidão em que viviam os agricultores e os que procuravam emprego nas fazendas cujos terrenos eram desmatados e limpos para a criação de gado. Nesse momento vários personagens vieram à tona nas entrevistas, como o “gato”. Fiz entrevista com um deles também. Veja-se que segundo dados “... entre 1975 e 1984 foram mortos pelo menos dez agentes da CPT e 37 líderes rurais. Os trabalhadores escravizados e mortos nem tinham conta. Mas havia denúncias sobre esses assassinatos.

Por condições objetivas (docente da UFPA, jornalista em O Liberal além de mãe de quatro meninas), angustiada por não poder viver nessa caminhada sistemática nos locais em que as mulheres rurais viviam seus dramas de vida e morte, optei por outro tema sobre as mulheres na política paraense, ideia das conversas com um colega do então Departamento de Ciência Política, o Raimundo Jorge de Jesus – trocar os estudos da área rural pela urbana. E o problema angustiante – academia e militância – se resolveu e escrevi minha dissertação de mestrado, transformada em livro, hoje.

Ao assistir “Pureza” as lembranças desse tempo nas caminhadas dos trabalhadores rurais com a Isa Cunha formaram fortemente minhas lembranças de observação e avaliação sobre a luta ao escravismo que ainda existe. (LMA) 


 

segunda-feira, 28 de março de 2022

OSCAR 2022 - AS EXPECTATIVAS E OS FILMES PREMIADOS

 

Uma atividade prioritária não me permitiu tempo disponível para apresentar, neste espaço, os meus prognósticos e expectativas em torno dos filmes indicados à premiação da Academia de Artes e Ciências de Hollywood, o clássico Oscar, avaliação feita por profissionais da indústria do cinema: diretores, maquiadores, atores, técnicos de som, executivos, técnicos e demais convidados pela academia. Meses antes da cerimônia, esses agentes iniciam a avaliação dos filmes definindo, inicialmente, as indicações.

Se antes da pandemia os filmes indicados ganhavam as distribuidoras brasileiras em um número de cópias capaz de atingir frações de mercado exibidor, por outro lado, aumentou, nesses dois últimos anos, o número de edições digitais, ou seja, de filmes que são distribuídos sem usar película, ganhando espaço online e, com isso, ostentando mais economia e fluidez. Trata-se da tecnologia de transmissão de dados pela internet constituindo-se no chamado streaming, ou seja, as plataformas que oferecem programação para assinantes como a Netflix, Spotify, HBO, STAR+, Disney, Amazon Prime e mais e mais.

No isolamento social a que Pedro Veriano e eu nos vimos diante das sessões presenciais em cinemas da cidade (somente nos shoppings, atualmente), tivemos uma pessoa querida que nos proporcionava assistir, desde janeiro deste ano, os prováveis filmes indicados. Marco Antônio Moreira (a quem agradecemos de coração) era o nosso “fornecedor” de copias em dvd desses programas, alguns ainda sem exibição nas plataformas. E assim conhecemos todos os filmes indicados. Tínhamos nossos preferidos, mas, à medida que assistíamos, esse entrava, também, no páreo das dúvidas. As discussões a dois, faziam a vez da necessidade de uma revisão e... graças... o tal filme divisor de águas já estava nas plataformas. Revíamos.

Tivemos nossos melhores escolhidos, mas, este ano não fizemos as apostas familiares tradicionais.

 

E A Academia Fez A Festa

 

Neste domingo, 27/03, ainda isolados, testamos nossas escolhas, nos prováveis vencedores. Algumas se confirmaram e outras não.

O que vimos nesse evento? Pessoalmente, continuo a reconhecer que o Oscar se torna o aliciador comercial do público mundial de cinema, “fazendo mentes e corações” numa sociedade capitalista. Não me arredo dessa crítica que sempre fiz. Entretanto, sistematicamente, com as mudanças da crítica social à ausência de diversidade no cinema roliudiano, algumas mudanças se tornaram insurgentes. A questão do preconceito estrutural à racialidade, às mulheres, às/aos idosos, à transexualidade, ao assédio sexual às atrizes foram temas focados de forma crítica nos momentos dessa celebração nos últimos anos, e, também, na denúncia ao número reduzido de diretoras & outras categorias de mulheres nessa profissão, além de outras análises críticas sobre a narrativa cinematográfica.

Exemplo dessas evidências em que a academia passou a ser questionada é que em 2015, por exemplo, entre os 20 atores indicados não havia nenhum negro. Outro aspecto: a distribuição das funções de escolha era majoritariamente formada por homens brancos. Embora tenha mudado, de 8% não brancos, ainda permanece o percentual de 16% formado de negros, latinos, asiáticos.

Da lista de indicados neste 2022 - "Belfast", "Não olhe para cima", "Duna", "Licorice pizza", "Ataque dos cães", "No ritmo do coração", "Drive my car", "King Richard: criando campeãs", "O beco do pesadelo", "Amor, sublime amor" – os meus preferidos eram “Drive my car"(perfeição de roteiro, de tema sobre a intersubjetividade, e compromisso com a visão reflexiva da perda e da dor), e "Ataque dos cães" (também excelente roteiro e o revisionismo da masculinidade performática em figuras de um cinema clássico que internalizou no público o conceito de macho caubói). Os demais, considerei bons, a exemplo, “Belfast” e o olhar da criança em relação aos conflitos bélicos; “Amor Sublime Amor”, nessa nova versão de Steven Spielberg, marcando as evidências dos conflitos raciais, que na outra versão, crescia o lado romântico do filme.

Nos minutos finais do evento, ao ouvir a chamada à “CODA (Children of Deaf Adults) - No ritmo do coração” fiquei em choque. Apesar de ter gostado do filme, considerei uma refilmagem do francês “A Família Bélier” (2014). Com a linguagem de sinais do discurso de Troy Kotsur – premiado como melhor ator coadjuvante, pelo filme – o soco no estômago foi incondicional. A versão francesa apresentara os personagens sem a dimensão dos que foram escolhidos pela diretora e roteirista Sian Heder, norte americana de 44 anos, preferindo atores que representassem sua própria identidade com a ausência de uma capacidade tão importante para viver esses personagens. Diz a diretora: “Queria encontrar uma forma de retratar a autenticidade dessa vivência, que nunca vemos nas telas”.

E nesse aspecto, vislumbrei um novo percurso dado pelos técnicos avaliadores da academia. Um filme independente que traz essa versão de linguagem de sinais pela própria inexistência de outros filmes já realizados, procurou envolver a discussão em mais um aspecto da diversidade social, nesse caso, o capacitismo. Troy Kotsur claramente apontou a ausência de convites para personagens com essa característica. Um tema que pode abranger milhões de outros realizadores sensibilizando-os para o fato de que os assuntos escolhidos e a indicação dos personagens precisa estar comprometida com a crítica aos vazios da indústria cinematográfica que não oferecem oportunidade a esses atores com a voz através de sinais, um ponto de vista crítico que precisa ser reconhecido para além das câmeras.

Ao rever esse aspecto do “criar/fazer/realizar” cinema na inclusão de mais um detalhe da situação da diversidade social – o capacitismo - não excluo meus filmes preferido “Drive my car” e “Ataque dos Cães” aos quais premiaria em todas as categorias.

O meio de expor as evidências da narrativa de “Drive my car”, torna-se num crescendo dos silêncios e do relacionamento entre o personagem principal Yûsuke Kafuku (Hidetoshi Nishijima) e os monólogos ouvidos em suas viagens até Hiroshima, em uma gravação de sua mulher que interpreta as falas da peça “Tio Vânia” de Anton Tchekhov. Sequenciando a narrativa em outra função, após a morte da esposa, ao tornar-se o responsável pela direção e escolha de atores para a montagem da peça, aos pouco se reconhece, se revê (pelo diálogo com um dos atores escolhidos) e amplia a dimensão psicológica complexa no enfrentamento de sua aprendizagem com a pessoa que dirige seu carro, também dolorida pela culpa pessoal, como ele, em relação à sua mulher.

O filme do diretor Ryûsuke Hamaguchi, adaptado de um conto de Haruki Murakami,  tem um ritmo lento pela necessidade de aprofundamento para o reconhecimento do processo de vida do personagem e se torna um road-movie pelas constantes viagens que este faz na estrada que percorre até seu lugar de trabalho. Uma metáfora ao que ocorre internamente ao percorrer seu interior e rever seus sentimentos com a motorista que com ele transpõe esses caminhos, compartilhando seus sentimentos, sua dor e culpa.

Quanto a Jane Campion realizou “Ataque dos Cães” e por este filme foi premiada neste 2022, como melhor diretora, o segundo Oscar que recebe, sendo o primeiro para “O Piano” (1993).

Em “Ataque dos Cães”, o foco principal trata, da diversidade humana e das representações que o cinema realiza em torno de figuras tradicionais masculinas num ambiente onde as mulheres transitam nos serviços domésticos mesmo em ambientes públicos (restaurantes, a ex.). Trata sobre a masculinidade. Adaptado do livro “The Power of the Dog”, de Thomas Savage, lançado em 1967, escritor de excelência no gênero literário. Somente agora transformou-se em projeto de cinema pelas mãos de Jane Campion. Que revolucionou o tipo do cowboy, desmistificando-o.

Os/as espectadores/as criaram no imaginário a figura do “cowboy” construída em filmes de diretores como John Ford, Sam Peckinpah, Sergio Leone, Clint Eastwood (para citar os mais conhecidos), nos chamados westerns ou, popularmente, nos "filmes de faroeste", cujo gênero clássico pode ser classificado nas estratégias de produção e comercialização do cinema norte-americano. Jane Campion foge ao padrão, ao mostrar outros tipos: um que se incorpora na tradição do “machão”, outro cuja figura se empenha no formato gestual e elegante, inclusive na forma cortês de tratar a todos, e outro, um jovem que não se enquadra em nenhum desses tipos, dócil e sensível.

Há referência deste filme no Blog da Luzia (http://www.blogdaluzia.com/2022/01/as-mulheres-atras-das-cameras-e-seus.html) , dai não tratar dele neste texto. Creio que mais um mérito para a diretora era a premiação de seu filme, do roteiro, do ator principal e do coadjuvante. Com tanta destreza se interpõem na realização que fica inconsequente a premiação de direção. Mas ao menos valeu a estatueta. Mais uma temática atual que Jane Campion manteve nas discussões públicas sobre esse filme.

No Oscar 2022 não poderia deixar de referir dois aspectos que achei interessantes: a homenagem aos 50 anos do filme “O Poderoso Chefão”, estando presentes Francis Ford Coppola, Robert De Niro e Al Pacino. Foi um grande momento essa celebração.

A outra, o momento de apresentar as pessoas do cinema que partiram esse ano. Uma cerimônia singular a quem assistiu aquele momento de tanta emoção. Um tempo, um momento uma vida. Hoje, para a minha geração as faces dos novos habitantes na Cinelândia que conhecíamos, está sem rosto. Desculpem a nostalgia sobre esse lugar e esse tempo para o cinema mundial.


Cena de "Ataque dos Cães" , de Jane Campion. Ela recebeu o Oscar o filme não. 

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

CINEMA, SEMPRE CINEMA ... REVISÃO DE FILMES...MULHERES

 

Claire Bloom  e Anthony Hopkins em "Casa de Bonecas" (EUA, 1973

A arte cinematográfica tem manhas, tempo sem ordem na avaliação dos temas argumentados que ontem não prestamos tanta atenção e hoje evidenciam assuntos que lemos, estudamos, aprendemos no dia a dia, convivendo na prática com outros olhares. Assiste-se, anos depois, a um filme ao qual não se deu tanta importância, e daí reconhecem-se equívocos de avaliação/interpretação da primeira vez que assistimos.

Esta semana assisti a uma das versões de “Casa de Bonecas” (1973, EUA), baseado no romance norueguês de Henrik Ibsen (1828-1906). O filme tem a direção de Patrick Garland, estrelado por Claire Bloom (dia 17/02 completou 92 anos), Anthony Hopkins, Ralph Richardson, Denholm Elliott, Edith Evans, dentre os principais.  Por sinal, nesse ano, 1973, houve uma outra versão com Jane Fonda no papel da personagem Nora Helmer, dirigido por  Joseph Losey.

A confidência neste post é considerar o que no argumento inicial referi sobre os diferenciais do ontem e do hoje ao assistirmos certos filmes. Não vou tratar de Ibsen nem de sua obra, nem analisar a narrativa, mas apontar o que deixei de ver na primeira vez que assisti ao filme. O enredo trata de um casal da classe social média alta, branco e as estratégias de uma convivência entre marido e mulher e as formas de sobrevivência no acesso aos recursos para manter-se nesse nível social. E tudo o que se observa são as dificuldades de Nora em guardar segredo sobre os empréstimos financeiros que consegue para garantir o marido no emprego e à medida que as sequências do filme seguem para apresenta-la como afável com todos, atenciosa com a educação dos filhos, subserviente com o marido, percebe-se que essa é uma atitude que ela julga ser de amor entre os dois.

O terceiro ato (percebem-se 3 eixos da narração) demonstra o desvelar dos segredos de Nora à sobrevivência profissional do marido. Na primeira vez que assisti ao filme essa argumentação passou totalmente despercebida. As atitudes agressivas e violência doméstica que no final se evidenciam contra ela encontram-na em silêncio, ouvindo a sua desvalorização como mulher. Nesse instante ela sai de cena. Ao retornar, a sequência mostra-a preparada para deixar a casa, marido e filhos. E nesse ponto, toda a argumentação silenciada de anos de convivência na violência e na subserviência vêm à tona em suas palavras, em suas denúncias ao ser questionada que vai ser mal falada como esposa, mãe e dona de casa. Ironicamente ela devolve o tratamento de culpa e diz ao marido que realmente ela não sabe quem é, vai procurar saber. Percebe-se uma outra Nora, consciente e observadora das regras a si impostas as quais vai romper. Ao perdão agora solicitado pelo marido agressor e as promessas que este lhe faz não cruzam mais a incerteza de Nora informando-o, finalmente, que não o ama mais.

Amei a Nora do século XIX. Que em meio ao século XX deixei de ver.

sábado, 8 de janeiro de 2022

UM TEMPO QUE ESTÁ PARTINDO...

 

Sidney Poitier 

No dia 7 de janeiro 2022, sexta feira, o cinema norte americano perdeu dois ídolos que circulavam no nosso meio – Sidney Poitier (94 anos) e Peter Bogdanovich (82 anos).

SIDNEY POITIER marcou a história do cinema de uma época ao receber o Oscar de Melhor Ator, em 1963, por seu desempenho em 'Uma Voz nas Sombras' (1963), sendo o primeiro ator negro a ganhar a estatueta. Seu personagem tem a ver com o sentimento de solidariedade às freiras de um convento e a representação que se evidencia sobre união e fé que elas consideram um milagre. Outros filmes dele, “'No Calor da Noite' (1967) e “Adivinhe Quem vem Para Jantar' (1967), também fizeram grande sucesso, e tematizaram a questão do racismo, e pasmem, foram filmes indicados pela Academia em várias categorias. Sua leveza ao personificar as figuras que ameaçavam os brancos deu ao ator a imagem de um líder.

Mas é “Ao mestre, com Carinho” (1967) que deixa no público adolescente a marca daquele professor que convive com os alunos de uma escola pública, sem as agressões a que estes vivenciavam no cotidiano. E a canção “To sir, with love” cantada por Lulu foi sucesso nas paradas musicais norte americanas.

PETER BOGDANOVICH foi a outra figura que partiu hoje, aos 82 anos, diretor que fez parte de uma geração vista como renovadora das produções de Hollywood, ao lado de outros nomes como Martin Scorsese, George Lucas, Steven Spielberg, Brian De Palma, Francis Ford Coppola e outros.

Seu filme de 1972, “A última sessão de cinema' foi indicado a dois Oscars - de melhor direção e melhor roteiro – sendo considerado, pela revista "Newsweek" como "o mais impressionante trabalho de um jovem diretor americano desde 'Cidadão Kane".

Dedicou-se também à pesquisa e à história das obras de Alfred Hitchcock, Orson Welles e outros.

Outros filmes: “Lua de papel'(1973), "Na mira da morte" (1968) e "O tatuado" (1979). Seus últimos trabalhos: "Um amor a cada esquina" (2014) e "The Great Buster" (2018), um documentário sobre o ator da comédia muda, Buster Keaton.

Essas partidas deixam marcas de saudade na minha geração de cinéfilos porque essas figuras do cinema reconhecidas como ícones de um tempo, deixaram de ser vistas como deviam. A memória sobre a obra deles nos deixa tristes porque em cada partida dessas partimos também.

 

 Peter Bogdanovich

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

AS MULHERES ATRÁS DAS CÂMERAS E SEUS TEMAS DE CRÍTICA SOCIAL -1

 

Este ano de 2021 minha lista de melhores filmes registrou a obra de três diretoras: Jane Campion (Ataque dos Cães, 2021), Chloé Zhao (Nomadland, 2020) e Emerald Fennell (Bela Vingança, 2020). Neste texto, esboço algumas evidências sobre os temas escolhidos por elas, demonstrativos de como a arte que assumiram pode ousar explorar tensos temas atuais através das imagens. Jane Campion inicia minha argumentação.

Em “Ataque dos Cães”, o foco principal trata, a meu ver, da diversidade humana e das representações que o cinema realiza em torno de figuras tradicionais masculinas num ambiente onde as mulheres transitam nos serviços domésticos mesmo em ambientes públicos (restaurantes, a ex.). Trata sobre a masculinidade.

Os/as espectadores/as criaram no imaginário a figura do “cowboy” construída em filmes de diretores como John Ford, Sam Peckinpah, Sergio Leone, Clint Eastwood (para citar os mais conhecidos), nos chamados westerns, ou, popularmente, nos "filmes de faroeste", cujo gênero clássico pode ser classificado nas estratégias de produção e comercialização do cinema norte-americano. Jane Campion foge ao padrão, ao mostrar outros tipos: um que se incorpora na tradição do “machão”, outro cuja figura se empenha no formato gestual e elegante, inclusive na forma cortês de tratar a todos, e outro, um jovem que não se enquadra em nenhum desses tipos, dócil e sensível. Nas atitudes de chacota que Phil Burbank (Benedict Cumberbatch) estimula em seus companheiros de jornada na fazenda da família a esse jovem, Peter Gordon ( Kodi Smit-McPhee), filho da dona do restaurante, Rose (Kirsten Dunst), evidencia-se que naquele ambiente outro tipo masculino não se enquadra fora da tradição do macho cowboy, e esse aspecto aponta para o processo de desconsiderar o “diferente” naquele meio social em que se destaca o tipo de “homem de verdade”. Nessas três representações, a magnitude da contextualização reserva a crítica aos personagens em que Jane Campion centra a sua oportunidade de aproveitar-se dessa construção para o desenvolvimento de características diversas sobre o “ser masculino” tradicional, favorecendo o olhar do público para o exame crítico sobre o imaginário construído e recorrente pelo cinema, com uma só figura essencialmente significativa nas relações de gênero, principalmente no faroeste.

São homens sem sentimentos? É possível classificá-los? E nesse aspecto, a recorrência a alguns detalhes emergem na narrativa (e que devem ser examinados pelo público) apontando para a subjacência das emoções desses três personagens, cada um satisfazendo ou ocultando o verdadeiro sentido desse tempo de introspecção psicológica, sentimental, íntima, do ser humano. Dinâmica rítmica favorecida pela formatação das sequências ativando a escolha de planos com imagens decisivas para o momento certo. As descobertas da afinidade entre os diferentes - o machão e o dócil – apresentam-se num plano pouco evidente, mas é esse o momento que aponta as ousadias do jovem Peter em aproximar-se de Bill. Pode-se, inclusive, apontar, nessa sequência, um aspecto de “voyeurismo” emitente da maior aproximação entre Peter e Bill, quando o primeiro reconhece a origem do amargor que domina Bill que passa a tratá-lo de forma menos hostil. Aprendizagem, confronto, aceitação vigoram agora no novo círculo construído.

“Ataque dos Cães” foi adaptado do livro “The Power of the Dog”, de Thomas Savage, lançado em 1967, escritor de excelência no gênero literário. Somente agora transformou-se em projeto de cinema pelas mãos de Jane Campion. Que revolucionou o tipo do cowboy, desmistificando-o.





segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

O CINEMA, EM MAIS UM ANO DE ISOLAMENTO - 2021

 

Anualmente, a ACCPA, ou Associação de Críticos de Cinema do Pará, organiza a lista individual de seus/as associados/as e apresenta uma relação geral, extraída da pontuação (10 a 1) dada a cada menção feita nas listas encaminhadas e já enumeradas. Uma prática de mais de 50 anos. As reuniões presenciais tinham o seu valor porque o convívio naquele único dia de “eleição dos melhores filmes”, como se dizia, era marcado pelas histórias particulares de cada um/a e se juntavam, em brincadeiras, sorteios, jantar e, as vezes, muitas tensões sobre episódios variados, além de um filme não votado ou que deveria estar na lista e não conseguira os pontos para chegar à final. Era isso. Hoje, com o isolamento social e a preocupação com a aglomeração devido ao período pandêmico, as listas individuais vem como sempre, pelo e-mail- quando essa ferramenta definiu uma outra forma de comunicação (antes, cada membro da APCC levava a sua lista manuscrita ou datilografada e entregava ao eterno secretário, o querido Edvaldo Martins). Somente sete membros da associação enviaram a relação individual, neste 2021. Os antigos secretários, após o Didi Martins (Arnaldo Prado Jr., Francisco Cardoso), não estiveram à frente dessa contagem, feita este ano por Pedro Veriano, Marco Antonio e eu.

Hoje eu ia tratar de outras situações do cinema no isolamento, mas prefiro apresentar a minha lista de melhores do ano, desejando que fosse alargada para 15 títulos entrando outros filmes. Vou deixar para um próximo momento essas várias facetas do cinema que aprendi num tempo sem tempo. Desejo a todas/os/es amigos do Face, uma grande força para realmente mudar a cara desse novo ano.

2022! FORÇA, ESPERANÇA, OUSADIA E FÉ!

MELHORES FILMES   2021

LUZIA ÁLVARES

1.    Ataque dos Cães (Jane Campion, Austrália, Canadá, EUA, Nova Zelândia, Reino Unido e Irlanda do Norte, 2021)

2.    Nomadland, de (Chloé Zhao, EUA, 2020)
3.    Judas e o Messias Negro (Shaka King, EUA, 2021)
4.    Cry Macho (Clint Eastwood, EUA, 2021)
5.    Benedetta (Paul Verhoeven, França/Holanda, 2021)
6.    Meu Pai (Florian Zeller, franco-britânica, 2020)
7.    Bela Vingança (Emerald Fennell, Reino Unido, 2020)
8.    Nós duas (Filippo Meneghetti, França, 2019, no cinema 2021)
9.    Tempo (M. Night Shyamalan, EUA, 2021)
10. Marighela (Wagner Moura, Brasil, 2019)

 OUTROS FILMES PARA A LISTA

 

11. Druck (Thomas Vinterberg, Dinamarca, 2020)

12. Pieces of a Woman (Kornél Mundruczó, EUA, 2020)

13. A Mão de Deus, (Paolo Sorrentino ,Itália, 2021)

14. Quo Vadis, Aida? (Jasmila Zbanic, Áustria, 2021)

15. Madres Paralelas (Pedro Almodovar, Espanha, 2021

 

OUTRAS CATEGORIAS


Diretora: Jane Campion (Ataque dos Cães)

Ator: Benedict Cumberbatch (Ataque dos Cães)

Atriz: Frances McDormand (Nomadland)

Ator Coadjuvante: Daniel Kaluuya (Judas e o Messias Negro)

Atriz Coadjuvante: Charlotte Rampling (Benedetta)

Roteiro Adaptado: Nomadland

Roteiro Original: Bela Vingança

Edição: Bela Vingança

Desenho de Produção: (“Benedetta”)

Fotografia: “Benedetta”

Figurinos: “Benedetta

 Animação (curta) - Se Algo Acontecer… Te Amo (animação), 12 min. de Michael Govier, Will McCormack (EUA, 2020)

Animação (longa) - Luca (EUA, 2021)

Documentário - Elas na Ciência (Picture A Scientist, de Ian Cheney, EUA, 2020)

 


quarta-feira, 28 de agosto de 2019

A DIGNIDADE DE UMA VELHA DAMA








Adaptado de um conto de Berthold Brecht “La Vielle Dame Indigne” (França,1965) é o primeiro longa-metragem do diretor René Allio(1924-1995). Como filho de Marseille ele filma a sua terra atendendo ao que lhe pedem as emoções mostrando como uma cidade muda de aspecto na medida em que a principal personagem da história resolve mudar de vida.
Mme. Bertini (Silvye) ou Berthe, como é chamada, é uma mulher de idade avançada. Na primeira sequência do filme a câmera capta momentos angustiantes que ela está vivendo, na cabeceira do marido nos últimos momentos de vida. No processo que se traduz como os preparativos dos funerais do velho senhor, Berthe é cercada pelos filhos que desejam orientá-la. Mas ela se rebela. Prefere viver só, na casa onde morava antes. Resolve viver a vida que lhe resta de uma forma independente. E acompanhando as imagens que refletem o seu caminhar pelas ruas e lojas vê-se, não só a sua postura que evidencia surpresa pelas coisas que observa, mas, também, aos poucos, seu rosto se ilumina e ela vai aprendendo a sorrir; seguindo-se o percurso que faz pelas ruas e, por onde passa, a câmera envolve também a mudança de ambiente que está em reconstrução.
Berthe aparenta ter mais de 70 anos. É mostrada num curso de vida desde a viuvez e os seus novos relacionamentos e descobertas durante 18 meses. Há uma cena chocante para quem tem outro olhar sobre certas circunstâncias de mulheres casadas nessa faixa etária: a atitude de Berthe diante do cadáver do marido. Antes de comunicar a qualquer pessoa o triste evento, avidamente, investiga os bolsos dele, de lá tirando o dinheiro que encontra e escondendo-o sob a blusa. Daí em diante, a situação do enterro, a presença da família questionando com quem ela iria ficar, a decisão sobre a venda da casa, enfim, os filhos definindo, de forma aleatória, o curso de vida que ela deveria ter daí em diante, desconsiderando a sua opinião. Mas seu propósito será outro, afastando-se dos filhos e construindo seu grupo de sociabilidade composto de uma prostituta e o namorado desta, vendendo a casa e os móveis, passeando no shopping e fazendo o que não deve ter feito antes, quando casada: olhar a louçaria, as panelas nos shoppings e...tomar um sorvete num banco de bar.
O filme não só ganha mais luz como a direção de arte especifica as transformações físicas da cidade, as ruas e prédios que traduzem a modernidade até então desconhecida pela senhora Berthe, presa ao velho sistema patriarcal.
Bretch propunha, justamente, o encontro social aliado ao íntimo. O roteiro de Allio com Gérard Pollican apega-se aos elementos de linguagem, seja a cenografia seja a edição (Sophie Cousein) seja a iluminação (fotografia de Denis Clerval) e, sobretudo, o desempenho de Silvye (1883-1970) exibindo a postura da idosa na expressão corporal, salientando seu semblante que vai gradativamente se iluminando (chegando ao sorriso) quando acha um mundo que desconhecia embora pressentisse existir fora do lar. Isso e a canção de Jean Frerrat que acompanha a história de forma descritiva.
Allio acompanha Sylvie pelas ruas de Marseille em travellings memoráveis, ressaltando nessas tomadas as transformações que se passam no ambiente (e na personagem Bertini). O movimento de câmera não é gratuito ou excessivo. Há um apoio sistemático da necessidade de narrativa, pretendendo sempre alcançar a difícil posição de um drama introspectivo que o escritor (Bretch) traduziu em palavras (e entra aí o difícil processo de transformar em imagens o que se escreve em muitas vezes poucas linhas).
O filme emociona e, como tal, pode gerar uma licença crítica de quem o vê. Mas em constantes revisões percebe-se o ganho de René Allio na sua estreia por trás das câmeras. Foi também o seu primeiro roteiro para longa-metragem. Fez cinema até 1991.
Mas a ideia de apresentar um tema fascinante sobre mulheres idosas, formadas em um sistema patriarcal que definia a vida delas é fascinante. Principalmente nos dias atuais.
Vivamos a independência, mulheres de todas as idades! Vamos à luta por nossa liberdade!


terça-feira, 18 de junho de 2019


O PARAENSE É UFANISTA?
Francisco Guzzo Junior
(médico)
Diria sem pestanejar ... na imensa maioria, com certeza, sim. Outros diriam: -Égua! Será?
Há histórias hilárias contadas e recontadas, que insistem em dizer que sim. Para ficar só numa, lembro daquela que ensina como identificar, na chegada de um voo, se há ou não os “papa chibés”. E a resposta é que nem o crediário daquela loja... fácil, fácil: você olha a esteira de bagagens e a densidade paroara está diretamente proporcional ao número de geladeiras de isopor desembarcadas. Afinal, temos sempre que levar, independente para onde se vai: açaí, filhote, tapioca, farinha, cupuaçu, tucupi... Esse orgulho de nossas riquezas e a necessidade de demonstrar esse amor é muito bonito de se ver.
Caso você seja mais um, que se enquadre nesta legião dos tomadores de açaí e dançadores de carimbó, e que faz questão de dizer a plenos pulmões que é de um país que se chama Pará, como disse o poeta, tenho que lhe passar um convite e uma obrigação.
Vamos começar pelo começo, para deixar tudo bem explicado:
Por ocasião do último festival Pan- Amazônico de Cinema – Amazônia Doc 5 - fui ao encerramento, no Teatro Maria Sílvia Nunes, confesso, que apenas motivado, por ser a titular deste espaço, D. Luzia Álvares, a principal homenageada da noite. Preciso esclarecer, que inegavelmente ela é possuidora de diversas virtudes, todas muito significativas e merecedoras de todas as homenagens. Dentre elas, grande professora universitária, exímia pesquisadora na área política e da defesa das mulheres, com diversos livros publicados, ativista das causas sociais, crítica e apaixonada pela Sétima Arte. Tudo feito com uma paixão incomum e uma doação pessoal irretocável. Como não fosse suficiente tamanho cabedal, ela ainda produziu, junto com Pedro Veriano, uma obra prima, no caso, minha querida Ana Cristina.
Dito isto, retornemos ao assunto inicial, para quem declaradamente, fez-se presente no Cine Maria Sylvia Nunes, na Estação das Docas, para acompanhar a homenagem justíssima à sua sogra, situação que por si só, já foi motivo de grande regozijo. Fui brindado com duas outras fantásticas emoções, comprovando que nada acontece por acaso e tornando esta noite inesquecível. A primeira, foi conhecer um projeto de inclusão social de adolescentes, através do cinema, desenvolvido pela professora Lília de Melo de um colégio da Terra Firme. Absolutamente fantástico! E a segunda emoção, é o real motivo de minha manifestação: ao final do evento, ocorreu a exibição do documentário paraense/carioca AMAZÔNIA GROOVE (Brasil, 1h25), direção de Bruno Murtinho e roteiro de Leonardo Gudel e co-produzido por Marco André Oliveira.
Amigos conterrâneos, poucas vezes tive tamanho orgulho de ter nascido nesta terra. O documentário é um primor! Ele testa com extrema maestria, cada um de nossos sentimentos mais profundos, consegue, ao sabor da maré, levar-nos em segundos, da risada escrachada a mais singela lágrima. E tudo isto, que me perdoem a ousadia de um mero espectador de filmes, com uma técnica esmerada, de direção, roteiro, som e fotografia.
Sem querer ser aquele chato e contar todo o filme (aliás, defeito que adoram me imputar e que confesso concordar), mas com os dedos coçando, não consigo me deter e descrever pequenos detalhes maravilhosos, que ficarão para sempre gravados na retina e no coração, dos privilegiados telespectadores dessa película ímpar. Claro que sem desvendar tudo, mas com o intuito de despertar no leitor, a sublime curiosidade, o filme já inicia com uma sequência antológica, gravada sem cortes, acredito que por um drone, que percorre um dos nossos inconfundíveis igarapés. A câmera como um olho maravilhado, pela exuberância de nossa floresta, segue delicadamente o curso d’agua observando cada detalhe, vai se aprofundando mata a dentro, sem ser lento, e passando a sensação que a qualquer momento teremos um êxtase. Em off, inicialmente uma locução geograficamente esclarecedora, que finaliza desvendando o grande argumento do documentário “quantas músicas cabem no nosso Rio”? Ainda sem cortes, na próxima curva do rio, surge a bela e grande surpresa, impensada e culturalmente vigorosa e significativa para nós. E se não bastasse, ainda guarda a última imagem da sequência. Sem palavras!
Deste início que classifico orgásmico, segue a apresentação sequencial de nove ilustres protagonistas da vida cultural paraense. Não irei enumerá-los para que continuem a ter a experiência que tive, que seja, a cada fechamento do ciclo de um dos personagens, por alguns maravilhosos segundos, ter a sensação, que é misto de adivinhação e surpresa, até desvendar quem será o próximo homenageado.  E assim, diante de olhos vidrados, somos convidados a mergulhar em nove universos infinitos. Cada um com um estilo próprio, apresenta-se através de um flash de sua história de vida muito particular e emocionante, em alguns casos pitoresca, guardando relação “sui generis” com encantamentos próprios de nossa região, vitórias pessoais improváveis, consagrações internacionais, entre outras. Mostram como e de quem receberam influências de diversos estilos que o encaminharam para aquele espectro musical, e assim, vem o brega, o bolero, o clássico, a guitarrada... toda essa efervescência musical que tanto nos particulariza e enriquece, como retalhos de uma colcha cultural, que se estende sobre nossas cabeças desde a nossa mais tenra idade e que aprendemos a nos acostumar quase que instintivamente. Para cada um, foi escolhido a dedo, o cenário adequado e coerente, portanto, temos o privilégio de visualizar pelos planos mais belos e inusitados, alguns pontos turísticos de nossa terra. Tudo contado com um zelo nos mínimos detalhes, com um tempero sofisticado e na dose absolutamente certa, fazendo o milagre de agradar para quem gosta do tucupi doce ou ácido, que me perdoe o anjo maldito, mas essa unanimidade é muito inteligente. Em uma palavra, irretocável!
E assim, finalizo fazendo o convite para que todos se deem o desfrute de assistir a um trabalho muito bonito e que enaltece a cultura de nossa gente. E a obrigação de divulgar para enchermos as salas que estão exibindo, nos shoppings: Cinépolis e no Parque Shopping Belém.
Parabéns efusivos a toda a equipe do documentário, em especial ao Marco André Oliveira, que não o conheço pessoalmente, mas antes do início do filme, falou que fez outro documentário sensacional, sobre o centenário do Paysandu. Ele só escolhe temas vitoriosos ....

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

ESCRITA, IMAGENS ANIMADAS ...SEMPRE IDEIAS




Charles-Émile Reynaud em seu teatro óptico 

Volto à escrita como se dela tivesse me ausentado. Pensar o cinema, o que ele tem de criador e instigante é estar sempre presente em meio às imagens que profusamente vemos aqui fora e nas telas. Pensar o que já foi criado mostrando uma história da técnica, se transforma em inquietação porque imaginamos que desde 1898 os Irmãos Lumière inventaram uma maneira de capturar imagens e transmitir essas imagens em um aparelho, o cinematógrafo, que fazia as duas coisas, capturava-as e projetava, esta última, a inovação que resultou no que hoje se tem como cinema.  
O estudo da história das técnicas cinematográficas, mostra que o praxinoscope, criado em 1876, por Charles-Émile Reynaud (1844-1918) foi uma das inovações que trouxe o desenho de animação para a galeria das imagens e hoje, pouco se lê sobre isso. Ou poucos são instigados para estudar essa categoria. Como estou sempre percorrendo essa área e, agora, para orientar jovens que já têm experiência prática na animação no cinema, encontrei um vasto material sobre esse tema. Entre estes, o texto do Prof. Alan Cholodenko (The University of Sydney, Art History and Film Studies)- “A Animação do Cinema” (Galaxia (São Paulo, online), n. 34, jan-abr., 2017, p. 20-54), que analisa a presença de Charles-Émile Reynaud no cinema, antes dos Lumière. E o desenho de animação como uma arte que será apropriada pelas imagens em movimento.
Em um site interessante (http://biografiaecuriosidade.blogspot.com/  há uma biografia de Reynaud do qual fiz esse recorte:
“Em 1879, ele estava pronto com uma evolução da invenção, que ele chamou de “Praxinoscopio-Teatro”. Nele, as imagens em movimento se contemplavam refletidas numa espécie de palco teatral em miniatura e sobrepostas em projetos decorados como no método lanterna mágica, que constituía um fundo sobre o qual as figuras se moviam. Trata-se de um precursor do sistema de dupla exposição ou sobreposição, técnica que seria importante no desenvolvimento da cinematografia. Mas o principal inconveniente era que o movimento animado sobre um tambor, deveria ser necessariamente cíclico. Portanto, Reynaud concebeu a ideia de desenhar suas imagens, não sobre espelhos rígidos, mas sim, em uma fita transparente e flexível, que lhe permitiria passá-la de uma bobina para a outra.” (...)
Em 1892, Reynaud fez um filme curta de animação francês, de 15 minutos - “Un bon bock” (A Good Beer ou Uma Boa Cerveja). Usou 700 quadros pintados. Constitui-se num dos primeiros filmes animados criados e o “primeiro a ser exibido no praxinoscope modificado de Reynaud, o teatro óptico.”
Os estudos sobre esse inventor prosseguem. O texto do Prof. Alan Cholodenko (2017) tem informações ricas sobre a historiografia da animação. E o site: https://sydney.academia.edu/AlanCholodenko , com muitos textos para download.
A técnica cinematográfica desenvolveu-se, cooperando o fenômeno chamado “persistência retiniana”, ou seja, a incapacidade da imagem persistir nos olhos humanos por determinado tempo, levando à descoberta do movimento de imagens colocadas em série que ultrapasse determinada velocidade. As pesquisas, a partir desse recurso, levaram às formas de animação e também ao uso de fotografias dispostas em serie que Thomas Edson aplicou em seus aparelhos e os irmãos Louis e Auguste Lumière, que eram filhos de um fabricante de películas fotográficas, criaram, com o cinematógrafo, a técnica da projeção dessas imagens, dando a noção e movimento a uma plateia mais ampla.
Outros textos e informações sobre essas técnicas no cinema vão estar por aqui, de vez em quando.